quarta-feira, 10 de abril de 2019

Resurrection Band / REZ





Hippies eram conhecidos por seguirem muita parada insana, como drogas, sexo livre, religiões orientais e misticismo. Em meio a essa liberdade por vezes libertina, um movimento de renovação surgiu dentro das igrejas: O Jesus Movement. Este abriu as portas para uma juventude que procurava respostas e não as encontrava com facilidade nas cada vez mais institucionalizadas e impenetráveis igrejas americanas. Nessa abertura surgiu a Jesus Music, um movimento musical fora de série, com o retorno do rock às suas origens na igreja, além de outros estilos como R&B, Blues, Country, Folk, Soul, Pop, Jazz e diversos outros ganhando espaço nas igrejas, a princípio com muita desconfiança, mas logo sendo a base da CCM (Música Cristã Contemporânea em inglês). Em meio a tantas com Larry Norman, Petra, Agape, 2 Chapter of Acts, Servant, Glass Harp, Randy Stonehill, All Saved Freak Band, Out of Darkness, Keith Green, Amy Grant, Dallas Holm & Praise, Andraé Crouch, The Imperials e diversas outras, uma banda se destacou por levar mais longe do que todas o ideal hippie de liberdade e desprendimento com o sistema: Resurrection Band, também conhecida como Rez Band ou REZ, originalmente chamada de "Charity" entre 1972 a 1974. Eles tocavam em diversos lugares com um trailer atravessando os EUA, a partir de Milwaukee, onde surgiu a comunidade Jesus People USA (uma das primeiras comunidades cristãs alternativas da história). Com uma pegada mais hard rock e blues, por vezes heavy metal (além de uma fase meio new wave), eles marcaram história na cena como uma das precursoras do metal cristão, mas também pela liberdade sonora e temas corajosos que por vezes eram evitados (e ainda o são) pela cena, como drogas, separação de casais, escravidão, racismo, pobreza, exploração de governantes, frieza espiritual, suicídio, dentre outros. Embora hoje em dia pouco lembrados, o grupo do casal Glenn e Wendy Kaiser merece todo respeito e atenção da cena pra sempre.


Music to Raise the Dead (1974)

01 - Down Baby
02 - I Can't Help Myself
03 - Crimson River
04 - There Will Be Fire
05 - We Can See
06 - Better Way
07 - Growin' Stronger
08 - The Man I Used to Be
09 - Quite Enough

Fita K7 contendo bastante material em som mais hard rock, numa linha bem próxima de Led Zeppelin, também tem alguns elementos de southern rock, como "Growin' Stronger", e blues, com "I Can't Help Myself", "The Man I Used to Be" e "Quite Enough" (essa última a mais memorável dessa demo). Foi gravada após a Jesus People USA mudar-se pra Chicago e chegou a ser relançada em 1992 pela Grrr Records (gravadora da banda).

Curiosidades: Foi mixada na mesma mesa usada por Elvis Presley anos antes em uma de suas gravações clássicas, e foi totalmente gravada com o uso de headfones no sótão de um amigo da banda, Gary Rotta, para evitar acordar a esposa deste.


All Your Life (1974/1976?)

Versão original: In the Beginning/ Psalm 61/ Because I Know Him/ Trust in Jesus/ Jesus Walked Upon the Water/ Connections/ Deep Inside my Heart/ Blue Waters/ All Your Life

Segunda versão:

01 - There Will be Fire
02 - Free
03 - Help Us
04 - Jesus is the Rock
05 - Quite Enough
06 - Ocean of his Love
07 - He Speaks to Me
08 - Broken Promises

A versão original foi gravada no mesmo tempo que a primeira demo da banda e no mesmo lugar. O som era mais folk, para atingir um público mais conservador. Essa K7 infelizmente nunca foi relançada e se perdeu. Porém em 1976 uma nova versão foi gravada, e essa bem curiosa: mais voltada pro rock psicodélico e pro heavy metal, essa é a mais conhecida, apesar de contar com apenas duas faixas relembradas até hoje (Broken Promises e Quite Enough, que reapareceram em lançamentos posteriores da banda), algumas pérolas, como a faixa de abertura, como o heavy consistente de Free e a belíssima Ocean of His Love.


Awaiting Your Reply (1978)

01 - Intro
02 - Waves
03 - Awaiting Your Reply
04 - Broken Promises
05 - Golden Road
06 - Lightshine
07 - Ananias and Saphira
08 - Death of the Dying
09 - Irish Garden
10 - The Return
11 - Tag


Resurrection Band... ALL EARS OPEN! 91º na lista dos 100 maiores discos da CCM do livro da revista CCM, esse álbum é simplesmente um fascínio de hard rock, com os vocais de Glenn e Wendy se alternando de forma majestosa já na faixa de abertura, Waves, deixando tudo mais belo do que seria possível. A guitarra de Stu Heiss em certos momentos parece uma gaita harmônica e não uma guitarra, tamanha a beleza dos riffs e solos. As influências de Led Zeppelin, The Who e Scorpions são notórias do começo ao fim do disco, trazendo um som consistente e bem pesado pr'aquela época, o que causou controvérsia e muitas críticas. O disco demorou pra encontrar uma gravadora disposta a distribuir, até que a recém-criada Star Song conseguiu esse feito. Mas a situação de reservas ao disco ainda foi tamanha que quando era vendido em várias lojas de discos cristãos ficava meio escondido porque a capa causava controvérsia (Sério, meus amigos, vejam essa capa e procurem o que diabos há de controverso nela?). Enfim, é um disco inesquecível, trazendo até um momento mais folk em "Irish Garden" e um pouco de música irlandesa, um country em "Ananias and Saphira" ou um som meio de cítara em "Golden Road". Tag é um fechamento minúsculo da faixa "The Return" e as vezes aparece separado da faixa original.

Rainbow's End (1979)

01 - Midnight Son
02 - Strongman
03 - Afrikaans
04 - Skyline
05 - Paint a Picture
06 - Rainbow's End
07 - Concert for a Queen
08 - Sacrifice of Love
09 - The Wolfsong
10 - Everytime it Rains



Capa alternativa
Seguindo a sonoridade hard'n'heavy do disco anterior, Rainbow's End já começa com uma faixa a lá Black Sabbath, "Midnight Son", e segue nessa linha sonora, com influências visíveis do hard rock setentista e do proto-heavy metal. Mas uma faixa no meio dessas se destaca pela sua primazia: "Afrikaans" foi a primeira música ocidental a denunciar os horrores da exploração branca na África do Sul e em todo continente africano, muito antes de "Biko" de Peter Gabriel fazer o mesmo e tornar mais famoso o grito de revolta contra essa vergonha mundial. Essa faixa inaugurou a fase de músicas críticas feitas pela banda.

O resto do disco segue com momentos mais hard rock, alguns mais suaves como "Concert for a Queen", e com uma belíssima balada, "Paint a Picture" que até hoje mexe demais comigo:

"Paint a picture of a broken heart
Paint that picture and you can start to understand the love of the Savior
And oh, how He understands you
Paint a picture of a blood-covered cross
See that picture and you'll know what it cost
- the price God paid to prove His love for you"

Apesar da qualidade sonora do disco, a Star Song dispensou a banda depois desse disco, infelizmente - ou não, já que o próximo álbum levaria a banda muito mais longe do que outrora.

Curiosidade: A faixa-título nunca foi tocada pela banda ao vivo até a sua última apresentação oficial no festival Cornerstone (organizado pela banda) em 2000.

Colours (1980)

01 - Autograph
02 - Colours
03 - N.Y.C. (New York City)
04 - Hidden Man
05 - Amazing
06 - American Dream
07 - Benny & Sue
08 - City Streets
09 - Beggar in the Alleyway
10 - The Struggle

Sem dúvidas uma das capas mais belas da história da música como um todo, "Colours" entretanto não é só uma capinha bonita: o disco é um verdadeiro achado. Embora com um som mais "leve" para encaixar-se em rádios, como é possível ver na belíssima faixa-título, esse disco é fantástico, e curiosamente, apesar do som mais suave, nada de piano ou teclados em nenhuma faixa. Letras bem criativas sobre a dificuldade da vida na cidade, como em N.Y.C. e Beggar in the Alleyway, além de outras temáticas mais cristãs e poéticas. Mas o grande achado é "American Dream", uma crítica nem um pouco sutil ao chamado "modo de vida americano" e à política norte-americana, mostrando os rumos que a música cristã começaria a tomar ao longo dos anos:

"Hail to the families in their tv rooms
Suicide, genocide, abortion, cartoons
Terrorism, violence, starving refugees
Conscience crucified, reality recedes
Nuclear tyrants, computerized plan,
Holding hostage everyman"



Mommy Don't Love Daddy Anymore (1981)

01 - Stark/Spare
02 - Elevator Muzik
03 - Alienated
04 - Can't Get You Out of My Mind
05 - The Chair
06 - Can't do it on My Own
07 - First Degree Apathy
08 - Mommy Don't Love Daddy Anymore
09 - The Crossing
10 - Little Children
11 - Lovin' You (Can't Stop Loving You)


Um pouco mais pop até que o disco anterior (incluíndo influências da new wave, em especial na faixa final do disco), MDLDA é um disco fantástico, com muitos momentos de deixar qualquer fã de rock agitando do início ao fim do disco. Novamente temas da sociedade aparecem aqui, como "Elevator Muzik", uma crítica ao materialismo americano de maneira zombeteira e usando o Muzak (som ambiente) como comparação das músicas vazias que já àquela época rondavam as rádios. "The Chair" aborda a vida difícil de cadeirantes, "Little Children" é um grito de socorro à situação já dramática das crianças do Haiti naquela época, ao passo que a faixa-título conta da desagregação de casamentos e divórcios e como ficam os filhos em meio a essa situação, basicamente uma autobiografia da vida do Glenn Kaiser que passou realmente por isso em sua infância. Outras faixas trazem abordagens geniais da vida cristã, como "First Degree Apathy" e "Alienated". Muitos consideram esse disco a obra-prima da banda (há aqueles que consideram Colours invés deste). O fato é que ambos são fantásticos, e trouxeram inovações geniais pro rock cristão e pra música cristã como um todo.

A banda punk/crossover The Lead fez um cover de "Alienated" em seu EP "Automoloch".

Curiosidade: A faixa "Can't Get You Out of My Mind" apareceu numa coletânea chamada "The Four Side Saga", coletânea em quatro discos da Buzz Magazine em que o primeiro disco (contendo essa música) foi comentado o lado A apenas pelo escritor John Blanchard no livro "Pop Goes the Gospel" (aqui no Brasil saiu como "Rock in... Igreja?") e a crítica contra a música foi pesada, como se ela fosse fraca de mensagem e só repetisse o refrão infinitamente, sem indicar quem seria o "You" da música. Uma enorme piada, pois quem já ouviu a música sabe bem. Vide a letra dela e lá está bem escrito que o "You" é Jesus Cristo que não sai mais da mente da Wendy Kaiser.


D.M.Z. (DeMilitarized Zone) (1982)

01 - Military Man
02 - Reluctance
03 - Babylon
04 - I Need Your Love
05 - Area 312
06 - No Alibi
07 - White Noise
08 - Lonely Hearts
09 - Prisioner
10 - So In Love With You


Apesar da bagunçada capa (uma das mais feias que já vi do rock), esse disco é um disco muito bom de se ouvir, e parece demais da conta com o "1984" do Van Halen (apesar de este ter vindo dois anos após o da REZ). Começa com um hard'n'heavy pesadíssimo, "Military Man", mas já emenda com "Relutance", um número bem new wave e cheio de teclados, e fica nessa alternância ao longo do disco. Essa personalidade dividida torna esse o primeiro disco da fase mais new wave da banda, apesar de ainda não totalmente como viria a ser o próximo disco de estúdio.

Liricamente a banda continua trazendo desde louvores diretos a Deus como "So In Love with You" e "I Need Your Love", até canções bem críticas como a faixa inicial (que é quase a faixa-título de certo modo), com sua crítica à militarização, ambição comum dos americanos e que por vezes tem contaminado os brasileiros (OBS: eu não sou contra a existência das Forças Armadas, só acho uma enorme estupidez tanta valorização a elas e à ambição expansionista e de guerras como os ianques são especialistas - só ver ao longo da história onde isso tá dando...). Outras faixas que falam dessa temática são "Babylon" e "White Noise" (essa com um solo de guitarra do Stu Heiss de 90 segundos no início da música que tornam esse o momento mais memorável da banda segundo eles mesmos). Já as faixas "Area 312" e "The Prisioner" trazem uma linguagem ainda mais juvenil do que a banda até então costumava trazer, visando o público do Ensino Médio americano, um objetivo que a banda continuaria a trazer vez por outra em suas músicas ao longo dos anos.

Live Bootleg (1984)

01 - Intro
02 - Military Man
03 - Gameroom
04 - Wendy's Rap
05 - Playground
06 - Medley ("Waves," "Awaiting Your Reply," "Broken Promises," "Autograph," "City Streets")
07 - White Noise
08 - Quite Enough
09 - Area 312
10 - Can't Stop Loving You
11 - Glenn's Rap


Apesar do nome, o disco não é um bootleg de facto, apenas o primeiro disco ao vivo da banda gravado na Odeum Arena em Chicago. Aliás, corrigindo aqui, "apenas" nada, esse é um baita disco ao vivo, tornando-se o mais vendido da história deles. Duas faixas novas aparecem aqui: Gameroom e Playground, fantásticas como as escolhidas para integrar esse show. "Wendy's Rap" e "Glenn's Rap" nada mais são que ministrações dos cantores. O Medley ficou muito bom, uma perfeita combinação. A fusão de elementos de hard rock e new wave continua aqui, e se amplificará no próximo lançamento.

Curiosidade: Primeiro disco em que a banda assume o nome encurtado Rez Band.


The Best of REZ: Music to Raise the Dead (1984)

01 - Colours
02 - Military Man
03 - Elevator Muzik
04 - Mommy Don't Love Daddy Anymore
05 - Amazing
06 - Area 312
07 - American Dream
08 - Autograph
09 - Can't Get You Outta My Mind
10 - So in Love With You


Coletânea baseada nos três discos lançados pela Light Records, e embora na minha opinião seja uma boa seleção de músicas (foi meu segundo contato com a música da banda inclusive), a não participação direta deles na seleção levou ao descontentamento deles. Anos depois lançariam uma nova coletânea só dos anos de Light, The Light Years (1995).


Hostage (1984)

01 - S.O.S.
02 - Attention
03 - Souls for Hire
04 - Defective Youth
05 - Who's Real Anymore?
06 - Armageddon Appetite
07 - Beyond the Gun
08 - Crimes
09 - It's You
10 - Tears in the Rain
11 - Walk Away



Agora sim uma enorme mudança musical. Jim Denton, o baixista e tecladista da banda, trabalhou bastante nas composições desse, com muito mais elementos de new wave (embora sem abandonar totalmente o hard rock, como é possível ver em músicas como "Attention", "Defective Youth" e "Crimes"). S.O.S. é a porta de entrada perfeita pra essa etapa da história da banda, que embora não tenha sido bem vista por boa parte dos fãs clássicos, é sem dúvidas bem construída e vale a pena ouvir. Segue em frente com outros bons momentos, como "Souls for Hire" e a experimental e insana "Armageddon Appetite" (uma das mais criticadas aliás por fãs antigos da banda).

Liricamente, a banda continua quebrando paradigmas, falando de problemas sociais, violência, criminalidade, juventude perdida e diversas outras problemáticas que a banda convivia bem de perto. Não a toa, "Crimes" acabou sendo a escolhida para virar o primeiro videoclipe da banda, com uma exibição limitada pela MTV, mas passou de maneira brilhante a mensagem da banda pra juventude e contra a criminalidade.


Between Heaven 'n Hell (1985)

01 - The Main Event
02 - Love Comes Down
03 - Zuid African
04 - Walk On
05 - Talk to Me
06 - I Think You Know
07 - Shadows
08 - Save me from Myself
09 - Nervous World
10 - 2000




VHS com os clipes de Crimes e
Love Comes Down, além de entrevista
exclusiva. Não sei o ano...
Voltando um pouco mais pro hard rock, a banda (agora já assumindo a versão ainda mais reduzida do nome, REZ) trouxe também uma grande contribuição da Wendi Kaiser nesse (a aparição dela na capa do disco diz tudo). As letras também mudaram significativamente, com menos foco evangelístico e um direcionamento mais amplo aos temas sociais, visando atingir o mainstream. "Love Comes Down" ganhou um videoclipe que, diferente do anterior, teve uma aceitação maior na MTV americana e vez por outra estava por lá. Outros grandes momentos do disco são "Zuid African" (retomando a temática anti-apartheid que a banda fora precursora e que naquela época já tinha virado "modinha" no meio musical), "2000" e uma balada maravilhosa, "Shadows". Essa canção, até hoje uma das melhores pra mim junto a "Broken Promises", "Military Man", "Silence Screams", "Rain Dance" e "Lovespeak", tem uma letra fantástica que fala sobre a depressão e o suicídio, mostrando todos os passos que levam as pessoas a este estado. Numa época como 1985, quando esse tema era tão pouco comentado, essa música virou uma canção atemporal, haja vista que desde um tempo atrás a depressão virou o "mal do século", afetando diversos de nós até hoje, e levando muitos ao suicídio. É uma canção que eu recomendarei pra sempre.


Silence Screams (1988)

01 - Silence Screams
02 - You Got me Rockin'
03 - Someone Sleeps
04 - Waitin' on Sundown
05 - Presence of the Lord
06 - Light/Light
07 - Rain Dance
08 - Every Waking Hour
09 - Three Seconds
10 - You Get what You Choose

Demos tracks:

11 - Lift Your Hands (Silence Screams demo)
12 - I See Red (Someone Sleeps demo)
13 - Light/Light (demo)

Três anos sem discos - talvez pela saída da Sparrow e subsequente criação do selo Grrr da própria banda, talvez pela saída do Jim Denton e entrada do novo baixista Roy Montroy, talvez pela reformulação sonora completa - e uma REZ muito mais pesada nascia em Silence Screams. A começar pela faixa título, com seu som de heavy metal bem sombrio, a banda trouxe de volta esses elementos, embora mais modernizados pro hard rock oitentista, além de reincorporar o blues.

A capa, uma verdadeira crítica estampada (ainda faço uma camisa dessa capa inclusive) já antecipa a temática pesada e crítica da banda nesse álbum. A faixa título é uma crítica pesada aos aproveitadores da fé alheia (falsos pastores, políticos corruptos, empresários ladrões, etc), "Someone Sleeps" fala das vítimas de guerra (originalmente, quando chamava-se "I See Red", versava diretamente sobre os ameríndios e o abandono que eles passam até hoje), "Waitin' on Sundown" fala da ganância humana cada vez maior, "Three Seconds" fala a respeito de racismo, e assim vemos uma banda que não tem medo de falar de nenhum assunto na ótica divina que definitivamente não está nada feliz com nossos atos nesse mundo - sim, porque infelizmente nós ditos cristãos somos sim culpados de diversos desses crimes, seja por ação ou omissão.

A versão de "Presence of the Lord" do grupo Blind Faith (banda de curta duração de Eric Clapton - e que gerou umas polêmicas bem cabulosas pela capa de seu disco kkkkkkkk) não foi a primeira feita por grupos cristãos (Larry Norman, Infinity Plus Three e The God Squad já tinham feito cover dela), mas na minha opinião é a versão definitiva dessa música. Trouxe os elementos hard rock da original, mas com o vocal maravilhoso de Glenn Kaiser. Emenda com a faixa mais rápida da história da banda, "Light/Light", e com a suavidade blues de "Rain Dance" (bem na linha de Gary Moore e Stevie Ray Vaughan), uma trinca fantástica. O disco fecha com uma pegada meio blues no início de "You Get what You Choose", mas a música mantém o clima meio hard AOR, mas já dando uma palhinha do quanto a banda iria seguir na linha mais blues. O nível de qualidade do disco lhe rendeu 4 de 5 estrelas da consagrada revista de rock britânica Kerrang!.

OBS: As demos inclusas nessa review oficialmente jamais foram lançadas, mas consegui as encontrar no Youtube, mais pela curiosidade de ver o processo de criação de faixas clássicas. Quem imaginaria por exemplo que o disco poderia ter se chamado "Lift Your Hands" e talvez uma linguagem mais religiosa? Ouvir a letra mais voltada pros indígenas de "I See Red" ou ouvir "Light/Light" cantada pelo Glenn invés da Wendi? Pois é, esses prazeres valem a pena!

Treasure Seeker fez um fantástico cover de "Silence Screams" em seu único álbum, "A Tribute to the Past".



REZ: Compact Favorites (1988)

01 - Love Comes Down
02 - Crimes
03 - Defective Youth
04 - Gameroom
05 - S.O.S.
06 - Military Man (live)
07 - Medley
08 - The Main Event
09 - 2,000
10 - Shadows



Mais uma coletânea feita não pela banda, mas pela gravadora (dessa vez a Sparrow, dentro de sua série de discos "Compact Favorites" que incluiu outros artistas como AD, Steve Camp e Sheila Walsh por exemplo), compreende músicas dos álbuns Live Bootleg, Hostage e Between Heaven 'N Hell. Mais uma vez, uma boa seleção de músicas, ajudando a entender essa fase mais "teclados" da banda, ainda que sem perder a essência do hard rock.


Innocent Blood (1989)

01 - Rooster Crow (intro)
02 - Altar of Pain
03 - The House is On Fire
04 - 80,000 Underground
05 - Fiend or Foul
06 - Where Roses Grow
07 - Right of Time
08 - Child of Blues
09 - Laughting Man
10 - Bargain
11 - Great God in Heaven


Seguindo em seu caminho mais hard'n'heavy'n'blues, REZ traz em Innocent Blood um som irado, que começa com a intro "Rooster Crow" (que anos depois, na Glenn Kaiser Band ganharia uma versão completa), um blues simples que é seguido por diversos petardos sonoros, como "Altar of Pain" (sobre a obsessão cultural americana voltada pros jovens - meio uma autocrítica até), "The House is On Fire" (contra cigarro, maconha e outras drogas - mas em especial essas inaláveis que transformam o pulmão em uma casa em chamas), "80 Thousand Undergrond" (sobre a escravidão), "Fiend or Foul" (uma baita música com uma letra em que o diabo fala em primeira pessoa sobre os males que ele promove - inclusive criticada pelo fariseu do Terry Watkins sei lá porque diabos), "Child of the Blues" (um blues irado sobre a pobreza), entre outras canções, que alternam entre o hard mais direto de um "Right of Time" a um blues genial de "Great God in Heaven". "Where Roses Grow" é a "Rain Dance" desse disco, um hard blues a lá Gary Moore iradíssima. "Bargain", versão de The Who, ficou muito massa, sepá melhor até que a versão original, mas também sofreu uma crítica pesada de Terry Watkins em seu site por ser um cover secular, o que não impediu entretanto que a versão da REZ virasse um hit de primeiro lugar nas rádios cristãs americanas. Enfim, é um dos discos mais consistentes da carreira da banda e está entre meus favoritos de sempre.

Curiosidade: A menina da capa é uma garotinha de oito anos chamada Tricia, morava próximo da Jesus People USA do Chicago, mas acabou raptada na área do Chase Park e jamais foi novamente encontrada. Em sua homenagem a banda a colocou na capa do disco. É uma forte candidata pra mim também em fazer uma camiseta usando essa capa como peita.

Civil Rites (1991)

01 - Lovespeak
02 - Mission Bells
03 - Comatose
04 - Death Machine
05 - Players
06 - Lincoln's Train
07 - Hot Footin'
08 - In My Room
09 - Little Jeanie
10 - Footprints
11 - Pauper's Grave
12 - Somebody to Love


A obscura e surrealista capa desse disco mostra mais uma vez o talento incrível da banda. E o conteúdo do álbum segue tão forte como os anteriores. Musicalmente não há muito o que acrescer, porque foi bem na linha do que já aparecera em discos anteriores, apesar de a maior participação da Wendi nesse disco (no meu entender uma ótima atitude, ela canta bem demais com seu estilo meio Grace Slick do hard rock - aliás, o cover pra "Somebody to Love" de Jefferson Airplane ficou fantástico, e, adivinha, gerou polêmica também com o Terry Watkins...). Ela divide vocais com o maridão Glenn em "Comatose" e "Hotfooting", um número de blues rock irado.

As letras desse disco trazem de volta um pouco da lírica evangelística pros jovens, ao focar em temas como sexo sem compromisso e a destruição emotiva que ele pode causar ("Players"), turbulências familiares ("In The Room") e o vício em drogas, em especial o uso de crack ("Little Jeanie"). Já numa linha de criticismo social, letras como a de "Comatose" (sobre prostituição e vício em drogas), os efeitos culturais e econômicas herdadas dos tempos da escravidão negra nos EUA ("Lincoln's Train") e críticas pesadas à industria armamentista para guerras ("Death Machine"). A faixa mais interessante no sentido de sua singularidade é "Hotfootin", dedicada aos pastores e missionarios que incansavelmente pregam a Palavra de Deus. A faixa de abertura, "Love Speak", está entre uma das minhas eternamente favoritas da banda.


XX Years Live (1992)

CD 01:
01 - Introduction/Waves
02 - Military Man
03 - Afrikaans
04 - Atention
05 - Colours
06 - Players
07 - The Struggle
08 - Fiend or Foul
09 - Alienated
10 - Paint a Picture
11 - Wendi's Rap
12 - Right of Time
13 - Love Comes Down
14 - White Noise

CD 02:
01 - My Jesus is All
02 - Lovespeak
03 - In Your Arms
04 - Bargain
05 - Shadows
06 - Somebody to Love
07 - Every Time it Rains
08 - Where Roses Grow
09 - Light/Light
10 - Glenn's Rap
11 - I Will Do My Last Singing in this Land, Somewhere

Segundo disco ao vivo da banda, XX Years Live comemora as duas décadas da banda. Uma apresentação fantástica no teatro Copernicus Center de Chicado. O apanhado de músicas foi significativo e muito bom, pegando ao menos uma faixa de cada disco da banda. Ouvir ao vivo Afrikaans, Shadows, Where Roses Grow ou Paint a Picture é sempre uma emoção nova, bem como a energia em Military Man, Waves, Attention, Light/Light e Lovespeak. Recomendo muito, bem como a versão em DVD que saiu em meados dos anos 2000, com menos músicas, mas com um material extra bem legal, incluíndo os três videoclipes oficiais da banda (Crimes, Love Comes Down e a - até o lançamento do XX Years Live inédita - Surprise). Está entre os melhores discos ao vivo da história do hard rock na minha humilde opinião, não deixando a dever nada pra nenhuma banda famosa da época, como Aerosmith, AC/DC ou Whitesnake.

OBS: As inéditas "My Jesus is All", "Every Time it Rains" e "I Will Do My Last Singing in this Land, Somewhere" ficaram fantásticas, sem falar de "In Your Arms", uma peça romântica e muito linda. No DVD vemos o carinho mútuo de Glenn e Wendi e a conexão forte entre os dois hippies cristãos. Muito lindo mesmo!

Reach of Love (1993)

01 - Heart's Desire
02 - If Your Love Grows Cold
03 - Numbers
04 - Sunrise
05 - Dead to the World
06 - Reach of Love
07 - Land of Stolen Breath
08 - Mannequin's Dream
09 - Empty Hearts
10 - Through I'd Never Love Again
11 - White Lies
12 - On My Dyin' Bed
13 - Heart's Desire (reprise)

Menos quisto dos discos da fase hard'n'heavy'n'blues da banda, Reach of Love entretanto continua a safra de sons bem construídos, como "Heart's Desire", "Sunrise", "Dead to the World" e a maravilhosa faixa-título. As letras continuam geniais, como "Land of Stolen Breath", "Mannequin's Dream" (metáfora para pessoas presas em sua inércia natural), "Numbers" (falando dos horrores da Guerra do Vietnã nas palavras de um veterano real que a banda conheceu e relatava o abandono de vários desses sem apoio do governo americano), "Empty Hearts" (uma música cantada em dupla e que relata uma situação cruel que eles presenciaram bem próximo ao apartamento do casal Kaiser) e "White Lies" (minha predileta desse disco, relatando as "pequenas mentirinhas" que dizemos pra esconder nossa realidade). Como é possível ver, muitas letras relatando situações muito pessoais e impressões deles mesmos acerca de várias situações do cotidiano. Apesar disso, recebeu críticas mistas à época, devido a continuidade da fórmula sem muitas alterações. Uma pena pra mim, pois o disco é muito bom.

Curiosidade: Todas as faixas do disco foram feitas pelo baixista Roy Montroy, o único disco da banda feito só por um membro da banda.

The Light Years (1995)

01 - Autograph
02 - American Dream
03 - Colours
04 - City Streets
05 - Beggar in the Alleyway
06 - The Struggle
07 - Amazing
08 - The Chair
09 - First Degree Apathy
10 - The Crossing
11 - Elevator Muzik
12 - Alienated
13 - Mommy Don't Love Daddy Anymore
14 - Lovin' You
15 - Babylon
16 - Military Man
17 - No Alibi
18 - White Noise
19 - So In Love With You
20 - The Prisioner
21 - I Need Your Love

Compreendendo faixas dos discos Colours, Mommy Don't Love Daddy Anymore e D.M.Z., essa compilação, diferente da "The Best of REZ: Music to Raise the Dead" compreende muito mais músicas dessa fase, criteriosamente selecionadas pela banda e tornando o disco maior e mais variativo. Esse apanhado de faixas tornou o disco superior à primeira coletânea feita pela Light Records. Recomendo bastante. Quem tiver a sorte (eu queria) de pegar uma versão física do disco terá acesso também a fotos, entrevistas e mensagens da banda como bônus (sim, aquela fase de "faixa bônus interativa" estava chegando ao mundo).

Lament (1995)

01 - Parting Glance
02 - Across These Fields
03 - On The Move
04 - Summerthrow
05 - At Land's End
06 - Song and Dance
07 - In Change
08 - The Road
09 - Dark Carnival
10 - Mirror
11 - Another Look
12 - Surprise
13 - Richest One
14 - Across These Fields (Reprise)
VHS do álbum

Quando sua banda, após seguir na mesma fórmula por quatro discos seguidos vê que a fórmula sofreu um desgaste, o que fazer? Reinventar-se! E que forma maravilhosa de fechar com chave de ouro a discografia de álbuns de inéditas com Lament. Com a assistência na produção e em algumas partes de guitarras e outros instrumentos do Ty Tabor (King's X, Platypus), um dos mais talentosos guitarristas de rock e metal progressivo de todos os tempos, a REZ, ou melhor, a Resurrection Band (sim, eles voltaram a usar o nome completo nesse) fez tal qual uma de suas bandas inspiradoras, a The Who: um álbum conceitual. E que senhor álbum conceitual, um raro exemplo dentro do rock cristão. E se o instrumental ainda mantém o elemento hard rock'n'blues, é inquestionável que os timbres e influência do Ty Tabor trouxeram aquele quê de King's X e do prog rock/metal californiano (a turminha formada por King's X, Atomic Opera, The Awful Truth/Galactic Cowboys e Tinnitus, que meio que seguiram em paralelo ao movimento grunge em várias características). "Summerthrow" por exemplo, se trocassem a voz de Glenn Kaiser pela do Doug Pinnick eu diria que estava diante de um novo disco do King's X.

A temática desse disco conceitual gira em torno do ciclo de loucura e dificuldades que o ser humano passa nessa vida, e que sem uma real rendenção espiritual jamais conseguiremos romper esse ciclo cruel. Um canto de cisne fantástico pra banda, que na turnê seguiram tocando unicamente músicas desse disco, sem nenhuma outra de outros álbuns, e seguindo fielmente a ordem das músicas, algo jamais feito até então por uma banda cristã, e bem pouco comum até mesmo no rock em geral: The Who, Pink Floyd, Dream Theater, Queensrÿche, Iron Maiden, Savatage e Styx foram alguns raros exemplos que tiveram essa coragem. Não a toa esse disco é um dos mais elogiados da banda, e foi considerado um renascimento indubitável deles.

"Surprised" ganhou um clipe bem legal que chegou a sair em VHS na época.

Ampendectomy (1997)

01 - Lovespeak
02 - Broken Promises
03 - Souls for Hire
04 - The House is On Fire
05 - I Need Your Love
06 - Rain Dance
07 - Shadows
08 - So In Love With You
09 - Colours
10 - Irish Garden
11 - Right in Time
12 - Across These Fields Reprise
13 - 2000
14 - Lincoln's Train
15 - Can't Stop Loving You

E por mais curioso que possa parecer, a banda encerrou sua carreira de discos de estúdio com um álbum acústico comemorativo de 25 anos de carreira. Nessa época era bem comum esse tipo de disco (era dos Unplugged MTV e Acústico MTV), mas o que a Resurrection Band conseguiu nesse disco foi recaracterizar diversos clássicos da banda de um jeito fora de série. A new wave de Souls for Hire desapareceu completamente, virando um blues competentíssimo, bem como "Lovespeak" virou um senhor hard blues no violão. So In Love With You passou por uma pegada mais pop, tal qual Colours ficou ainda mais dançante. The House is on Fire, na contramão, foi a música que menos mudou, junto com as baladas Broken Promises e Shadows, que ficaram bem próximas das originais, apesar da "ampendectomia". "Rain Dance" ficou um achado blues muito bom. Várias canções desse disco reapareceriam numa coletânea solo do Glenn Kaiser de 1999 chamada "Blues Heaven", com alguns clássicos do cantor gravados por ele ao longo dos anos, seja solo, seja em companhia de amigos como Darrell Mansfield e Larry Howard, ou, obviamente, na Rez Band.

Curiosidade minha: Meu primeiro disco da Rez foi esse. À época já tinha ouvido falar deles como uma banda de hard rock daquelas, e me deparar com esse disco de primeira foi um susto enorme. Mas não demorou pra eu ter contato com a fase realmente pesada da banda e tornar ela uma das minhas eternamente favoritas. Dito isso, esse disco acabou virando uma paixão nova quando, já habituado com as versões originais das músicas, reouvi esse e vi que a banda fez um trabalho excelente com este também.


Music to Raise the Dead 1972-1998


Disco 1:

        Awaiting Your Reply
        ___________
  1. Waves
  2. Awaiting Your Reply
  3. Broken Promises
  4. Irish Garden
  5. The Return

    Rainbow's End
    _______
  6. Afrikaans
  7. Paint a Picture
  8. Rainbow's End
  9. Concert for a Queen
  10. Everytime It Rains

    Colours
    _________
  11. Colours
  12. Amazing
  13. American Dream
  14. The Struggle

    Mommy Don't Love Daddy Anymore
    _________
  15. Alienated
  16. The Chair
  17. First Degree Apathy
  18. The Crossing

Disco 2:

           D.M.Z.
           _________
  1. Military Man
  2. Babylon
  3. Area 312
  4. No Alibi
  5. White Noise

    Hostage
    _________
  6. Attention
  7. Crimes
  8. Tears in the Rain

    Between Heaven 'N Hell
    __________
  9. Love Comes Down
  10. Zuid Afrikan
  11. Shadows
  12. Nervous World

    Silence Screams
    ___________
  13. Silence Screams
  14. Light/Light
  15. Rain Dance

    Innocent Blood (continua no próximo CD)
    ___________
  16. Rooster Crow
  17. Altar of Pain
  18. Right on Time


Disco 3:
  1. The House Is on Fire
  2. Where Roses Grow

    Civil Rites
    ___________
  3. Lovespeak
  4. Players
  5. Lincoln's Train
  6. Somebody to Love

    Reach of Love
    ___________
  7. Reach of Love
  8. Land of Stolen Breath

    Lament
    ___________
  9. Summerthrow
  10. Song and Dance
  11. Surprised
  12. Across These Fields Reprise

    Ampendectomy
    ___________
  13. Souls for Hire

    Live Bootleg
    __________
  14. Gameroom
  15. Can't Stop Loving You

    Music to Raise the Dead
    __________
  16. Quite Enough

Disco 4 (DVD) LIVE IN CONCERT XX YEARS:

Military Man
Afrikaans
Attention
Colours
Players
The Struggle
White Noise
Alienated
Paint a Picture
Love Comes Down
Lovespeak
In Your Arms
Shadows
Where Roses Grow
Light/Light
I Will Do My Last Singing in This Land Somewhere

Special Features:
Crimes: Music Video
Love Comes Down: Music Video
Surprised: Music Video
Band Commentary

REZ vive para sempre! Os "Joões Batistas da música cristã", como eles costumavam se chamar, podem ter encerrado oficialmente a carreira como banda em 2000, pouco antes de completarem 30 anos de estrada, mas não só esporadicamente se reuniam para algumas apresentações, como lançaram esse box comemorativo de 35 anos fantástico. 52 músicas remasterizadas digitalmente das mais diversas fases da banda aparecem aqui, a maioria seguindo a ordem de lançamento (a exceção das 3 últimas do CD 3). Além do mais, ainda vem com o DVD do show de XX anos da banda, mais material extra, e um encarte com inacreditáveis 80 páginas com a história da banda e fotos. Sonho de consumo meu até hoje!

Bootlegs: Sei que a banda fez um show por volta de 1998 que acabou como bootleg. Infelizmente não tenho informações precisas - inclusive infelizmente perdi esse material -, mas é possível com sorte encontrar no ZPoC (estou a cata lá a um tempinho. Caso encontre darei um jeito de incluir ele aqui nas reviews da banda).

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Ver também:

Glenn Kaiser/Glenn Kaiser Band
Kaiser/Mansfield (& Howard)
King's X
Ty Tabor
Platypus


Letras: Resurrection Band / REZ



quarta-feira, 3 de abril de 2019

Rebanhão



Rebanhão é uma banda que sua história se confunde em seus primórdios com a do seu fundador, Janires Magalhães Manso. O saudoso músico que nos deixou em 1988 converteu-se em meados dos anos 70 e passou a viver uma vida bem simples, mas decidiu dedicar seu talento musical a Deus, com toda a criatividade possível. Muitos grupos naquela década no Brasil vinham tentando romper as fronteiras musicais, como Os Cantores de Cristo, Jovens da Verdade, Embaixadores de Sião, Cades-Barneia e Êxodus, entre outros, e sem dúvidas o Rebanhão foi o primeiro a fazer isso com maestria, mas também sofrendo bastante oposição por parte das igrejas desde sua primeira encarnação, ainda em São Paulo, posteriormente com uma versão em Rio de Janeiro que ficou muito mais famosa e que seguiu em frente após a saída de seu líder em 1985 para participar do MPC de Minas Gerais e montar a Banda Azul. Tornando-se os precursores da cena do movimento gospel no Brasil, foram também os primeiros a alcançarem as rádios não-cristãs, espalhando sua fé e sua música de altíssima qualidade e letras geniais. Em 1999, após 20 anos, a banda teve seu fim, mas para a alegria de muitos, em 2014 voltaram a ativa com três integrantes de sua formação mais clássica: Carlinhos Félix (guitarra e vocais), Pedro Braconnot (teclados e vocais) e Paulinho Marotta (baixo e vocais).


Janires - Rebanhão K7 (1979)

01 - Castelo de Areia
02 - Tributo (Aleluia)
03 - General
04 - Disco Voador (Bebê de Proveta)
05 - Taças de Cristais
06 - Para Dançar (Discoteca)
07 - Eu Tenho Uma Casa no Céu
08 - Etc e Tal (Ponte)
09 - Pai Herói (Cara a Cara)
10 - O Espetáculo Mais Lindo da Terra (Arco-Íris)

(OBS: Alguns títulos de música são incertos, e a ordem apresentada é a comumente encontrada em MP3 na internet)

Raríssimo K7, gravado ainda com a primeira encarnação do Rebanhão (Janires, Lurdinha, Mike - futuramente famoso por canções tocadas no Oficina G3 e Metanoya - e Carrá) em SP, quando faziam parte da Igreja Cristo Salva, muitos não consideram ainda um disco oficial da banda e sim um solo do Janires. A pegada lembra uma fusão de tropicália, rock progressivo e o projeto bizarro do Raul Seixas nomeado "Sociedade da Ordem Grã-Kavernista". Essa fusão de estilos trouxe uma sonoridade fora de série, admirável até hoje, pois rock progressivo e samba dividem espaço magistralmente aqui.

Liricamente Janires já mostra sua poética fascinante em "Castelo de Areia" e em "Taças de Cristais", além de um estilo bastante curioso de falar de temas da época, como danceterias (e a possibilidade de cristãos dançarem pra adorar a Deus sem precisar de discoteca - que curioso em uma época em que temos até "rave gospel" como a atual), bebê de proveta, máquina "xeróx", prancha de surfe, Flash Gordon, King Kong, novelas e programas da Globo - Cara a Cara, Pai Herói, Direito de Nascer, Os Trapalhões, Planeta dos Homens e Fantástico (sim, na época em que até bandas cristãs de rock como a Vida Abundante cantavam músicas dizendo que TV era do diabo, "TiraVisão" - música da dupla Ageu e Mauro kkkk) -, comerciais ("Casa no Céu" remete um pouco a esse estilo) e até mesmo uma canção que já ilustrava uma certa indiferença de alguns cristãos ante a sociedade, anos antes da maldita teologia da prosperidade dar às caras ("Etc e Tal"). Sem dúvidas essa K7 é atemporal demais, mesmo tendo tantas citações de elementos daqueles anos 1970 no Brasil.

Versão original e a censurada
Mais Doce que o Mel (1981)

01 - Tudo Passa
02 - Monte
03 - Mel
04 - Salas de Jantar (Pot-Pourri: Jesus Cristo Pode te Dar/Glória a Jesus/Jesus, Filho do Homem/Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo)
05 - Passageiro
06 - Baião
07 - Refúgio
08 - Amizade
09 - Casinha
10 - Tudo é Meu

Após se mudar pra Rio de Janeiro, Janires montou uma nova versão do Rebanhão: Ele nos vocais principais e seu violão Ovation, Carlinhos Félix, recém saído do grupo Sinal Verde, nas guitarras e segundo vocal, Paulinho Marotta no baixo (e posteriormente segundo vocal também), Pedro Braconnot (teclado e back vocais), Kandel (bateria) e Zé Alberto (percussão). O disco já chegou muito bem pela gravadora Doce Harmonia/Donai, apesar da polêmica instantânea que o mesmo gerou já na capa, com um Janires de camisa aberta mostrando o peito cabeludo "bem sensual" kkkkk e um Carlinhos Félix barbudo pra desespero dos pentecostais da época (vide acima a versão original e rara da capa e a versão já censurada).

A sonoridade pop rock, com visíveis influências de Jovem Guarda, Raul Seixas e Secos e Molhados, dentre outros, também causou muita controvérsia. Até acusações de mensagens subliminares no disco rolaram, com vários religiosos bobos rodando o disco de trás pra frente tentando encontrar palavras diabólicas (kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk). A religiosidade à época realmente era terrível, infelizmente.

O disco traz o Carlinhos Félix cantando 6 das dez músicas, trazendo nelas sonoridades mais suaves, apesar de uma em especial, "Passageiro", ter uma pegada mais blues/jazzística. "Monte" tem uma letra bem séria e curiosamente crítica - pr'aqueles irmãos que vivem subindo em monte pra orar (algo que não é necessariamente errado, frise-se), e ignoram os irmãos que não fazem isso - e o sax de Paulinho Araújo. "Refúgio", primeira composição da vida de Pedro Braconnot, virou uma balada épica. "Tudo é Meu" trouxe uma harmônica, e é bem pop/rock, tal qual "Amizade".

Já as outras quatro faixas são puramente Janires, com sua genialidade sublime, como a balada genial "Mel" (regravada por Marcos Góes e Kim anos mais tarde), o "Pot-Pourri" bem progressivo, que já ganhou uma versão atualizada pelo próprio Rebanhão e pelo grupo de grindcore pernambucano NxOxS. As mais épicas sem dúvidas foram o chorinho "Casinha", com sua visão dúplice de uma cidade do interior e a seguinte visão futurista da cidade celestial; e a mais épica canção, "Baião", uma música que o ritmo é o que o próprio nome diz, com uma letra genial e crítica ao abandono do governo à sociedade, bem corajosa em meio à Ditadura Militar que governava o país. Ambas ganharam versões do próprio Rebanhão e diversos outros cantores e bandas, como Carlinhos Félix, Paulo César Baruk. F.O., dentre outras. Tudo isso torna esse um álbum excepcional, provavelmente o mais importante dos anos 1980 no Brasil e eleito o segundo maior disco da música cristã do site Supergospel por vários críticos, dentre eles este que vos fala (só atrás de "De Vento em Popa" do Vencedores por Cristo).


Luz do Mundo (1983)

01 - Luz do Mundo
02 - Hoje Sou Feliz
03 - UAI (Unidos no Arrebatamento da Igreja)
04 - Com Cristo em Mim
05 - Casa no Céu
06 - Sinal Verde
07 - Ano 2000
08 - Jesus Meu Refúgio
09 - Taças de Cristal
10 - De que Adianta?


Contracapa

Ainda mais bem produzido que o antecessor, gravado nos estúdios da Rádio Transamérica e conseguiu ser tocado em rádios não-cristãs. As faixas "Casa no Céu" e "Taças de Cristais" voltam com versões ainda mais fantásticas do que as originais da fita K7 de 1979, e as faixas de Janires seguintes mantém a genialidade do saudoso líder. "UAI" me remete, pelo título completo, a uma escola de samba, apesar de não ter nada a ver com samba e sim um belo rock progressivo. "Hoje Sou Feliz" é uma homenagem ao piloto e amigo de Janires, Alex Dias Ribeiro, um dos líderes do projeto "Atletas de Cristo" e é uma das canções mais belas de toda a minha vida, amo ouvir e reouvir diversas vezes, por me remeter a sonhos de infância, quando eu também queria ser o Super-Homem. Foi também a faixa de estreia de Paulinho Marotta dividindo vocais com Janires. "Ano 2000" pode não ter se concretizado (kkkkkkkkk), mas virou uma faixa de rock bem forte e fantástica. As faixas de Carlinhos Félix são fantásticas também, como a genial samba-rock "De Que Adianta?", a faixa em homenagem à antiga banda dele, "Sinal Verde", e a faixa título.

O disco chegou a ser relançado pela Arca Musical em 1998 com uma capa azul e a imagem do pastor com a ovelha (não achei para postar aqui, mas se encontrar com certeza postarei - Nota do Redator), e em 2018 voltou a venda com a capa original.

Paz pra Cidade (Single, 1984/5?)

01 - Paz pra Cidade
02 - Menino Passarinho
03 - Natal é Boas Novas

Compacto lançado em comemoração do natal, raríssimo. A faixa "Paz pra Cidade" foi posteriormente republicada na coletânea Ponto de Encontro da MPC, junto com uma versão solo de Janires pra "Casinha" e vários outros artistas como Jovens da Verdade, Vencedores por Cristo, Quarteto Vida, Grupo Águas, Grupo Pescador, Grupo Semente e Sinal Verde. "Paz pra Cidade" foi a última gravação oficial de Janires pra sua banda Rebanhão, já que em 1985 ele se mudaria pra Minas Gerais para formar a Banda Azul.

Janires - Janires e Amigos (1985)

01 - Baião
02 - Jesus Cristo Mudou Meu Viver
03 - Baltazar, o Artilheiro de Deus
04 - Helena (todo pecado será perdoado)
05 - Mamãe
06 - Jesus Super-Herói
07 - Casinha
08 - Alex, o Baixinho Voador
09 - Alfa & Ômega (ministração)
10 - Arca (Festa de Arromba Evangélica)
11 - À Amiga RBN (Rádio Boas Novas) (Lindas Canções)

Versão em CD:

12 - Mel (versão original)
13 - Baião (versão original)

(OBS: A ordem em LP é diferente dessa apresentada aqui).

Relançamento de 1994
Oficialmente é um disco solo do Janires gravado ao vivo no auditório da Rádio Boas Novas em 14 de dezembro de 1984 (tornando-se o primeiro disco cristão ao vivo do Brasil) comemorando seus 10 anos de conversão com vários amigos, como a Banda Fé (com os futuros Banda & Voz Natan Brito e Beno César), que fez o acompanhamento, junto a vários amigos como o também já saudoso pastor Paulo César Graça e Paz, Marcos Góes em seu primeiro trabalho musical antes do Grupo Alma e futura carreira solo, membros do Rebanhão como Kandell, Pedro Braconnot e Carlinhos Félix, João Alexandre (na época nos grupos Pescador e MILAD) e vários homenageados, como o jogador Baltazar (que citou essa experiência no livro dos Atletas de Cristo), a atriz e cantora Helena Brandão (que tem por nome artístico Darlene Glória), o piloto Alex Dias Ribeiro, além da própria mãe, Luzia Magalhães. "Jesus Super-Herói" foi um dos primeiros sons cristãos brasileiros voltados pra crianças com uma sonoridade bem modernas, lembrando muito Trem da Alegria e a Turma do Balão Mágico. Os vocais do ainda bem jovem Wagner Carvalho (irmão da Cristiane Carvalho e que futuramente seria baterista na Rebanhão) deram o ar jovial que a música precisava. João Alexandre dividindo vocais em "Casinha" é maravilhoso de se ouvir. "À Amiga RBN" é basicamente uma vinheta da rádio cantada pelo pessoa.

Curiosidade: Bandas e artistas citados na música "Arca": Banda do Exército da Salvação (igreja e instituição filantrópica que atua em vários países), Edson e Tita Lobo (com quem dividiram palco no início dos anos 1980), Sinal Verde (antiga banda do Carlinhos Félix e Lucas Ribeiro), Ozeias de Paula (mais famoso por "Eram 100 Ovelhas"), Maurão dos Bonecos (um mito esquecido pela mídia gospel infelizmente), Grupo Logos (mais fantástica banda cristã nacional), The Imperials (coral e banda de rock cristã americana que chegaram a acompanhar Elvis Presley por anos), Vitorino Silva, Vencedores por Cristo, Danny Berrios (um dos mais famosos cantores latinos cristãos), Jovens da Verdade, Nicolleti (precursor da jovem guarda cristã), Grupo Sonoros (famoso pela versão de "Há um Doce Espírito Aqui"), Grupo Semente (do também saudoso Sérgio Pimenta, famoso pela música "Teus Altares"), Shirley Carvalhaes (rainha da música cristã pentecostal), B.J. Thomas (sim, um mito do rock mundial que também cantou clássicos para Deus), Don Stoll & Asaph Borba, Feliciano Amaral (o precursor dos singles cristãos brasileiros, saudoso conterrâneo), Grupo Actos (que não é o Actos 2 e sim um grupo de MPB cristão que faziam parte a dupla Cintia & Silvia), Edison e Telma Coelho (casal que trouxe letras muito mais poéticas e brasileiras ao nosso cancioneiro cristão), Som Maior (coral e banda de rock formada por integrantes do Coral Jovem de São Paulo e da Banda Êxodus, famosa por versões de "Tu és Fiel", "Galhos Secos", "Deus tem um Plano" e a fantástica "Ele é a Razão"), Comunidade S8 (uma das voltadas pro trabalho com hippies e com muito rock progressivo), Andrae Crouch (saudoso cantor de R&B cristão, que dentre outras nos legou a faixa "My Tribute", aqui regravada em português por dentre outros Luiz de Carvalho, Cristina Mel e Renascer Praise), Denise Cardoso (uma das que começou mais jovens na carreira musical cristã), Os Cantores de Cristo e o Paulo César Graça e Paz.


Semeador (1986)

01 - Semeador
02 - Pastor da Minh'Alma
03 - Viajar (cover dos Vencedores por Cristo)
04 - Disse Jesus
05 - A Flor do Campo
06 - Vinde às Águas
07 - Não Julgueis
08 - Mar de Amor
09 - Paz do Senhor
10 - Seu Melhor Amigo



Primeiro disco cristão lançado pela PolyGram do Brasil, e também o primeiro da banda sem o fundador Janires como cantor e compositor, a banda seguiu com uma formação mais enxuta e a mais estável por anos: Carlinhos Félix como novo líder, nos vocais principais na maioria das músicas, além de tocar guitarra e violão, Paulinho Marotta no baixo e vocal de "Semeador", "Viajar" e "Não Julgueis", Pedro Braconnot nos teclados e sintetizadores, além de pela primeira vez nos vocais principais em "A Flor do Campo" e "Mar de Amor", e o baterista Fernando Augusto "Tutuca" também fazendo voz de apoio. O disco segue uma sonoridade mais pop/rock, power pop e AOR, e trouxe pela primeira vez composições de artistas de fora da banda, como "Viajar" de Sérgio Pimenta (Vencedores por Cristo e Grupo Semente) e "A Paz do Senhor" de Lucas Ribeiro (Sinal Verde, que também ajudou em "Vinde as Águas" de Carlinhos Félix e vez por outra apareceria entre os compositores da banda). A partir desse registro a banda alcançou as rádios AM e FM do Brasil e se tornaram a banda protestante mais famosa do país. Sidney Ferreira (bateria) e Natan Brito (voz de apoio), ambos do Banda & Voz, deram uma ajuda genial nesse disco, o que tornou-se fundamental pra qualidade genial desse belo trabalho. O sucesso do Rebanhão na Polygram levou a também secular gravadora Califórnia (já especialista em lançar artistas cristãos a muitos anos) a investir na banda Sinal de Alerta, que era meio que uma Monkees ante os Beatles na época em que ambas surgiram, mas tal qual os Monkees, a Sinal de Alerta logo teria sua própria identidade, sem ser uma versão clone do Rebanhão.

Curiosidade: Pedro Braconnot acabou ganhando uma premiação curiosa nessa época: a de músico brasileiro mais bonito, vencendo até mesmo galãs já consagrados como Fábio Jr. e Maurício Mattar.


Novo Dia (1988)

01 - Jesus é Amor (Jesus is Love)
02 - Firme os Pés
03 - Você Precisa de Deus
04 - Entre Eu e Você
05 - Contemplar
06 - Novo Dia
07 - Razão
08 - Primeiro Amor
09 - Nada Mais a Temer
10 - N'Ele Você Pode Confiar (Conheci um Grande Amigo)



Muito mais ligado ao pop que o disco anterior, é um verdadeiro clássico do rock cristão nacional, e foi considerado o 30º mais importante disco da música cristã nacional pela Super Gospel. Traz pela primeira (e única) vez na história da banda uma versão de uma canção americana, "Jesus é Amor", que ganhou um lindíssimo videoclipe. A música original é do grupo The Commodores, composta pelo famoso cantor de R&B Lionel Richie.

A liderança de Carlinhos Félix continua notória nesse disco, com a maioria das faixas cantadas por ele, mas Pedro Braconnot começa a despontar com seus vocais nas faixas "Contemplar", "Razão" e "Nada Mais a Temer". Paulinho dessa vez canta somente em "Entre Eu e Você", e assim suas participações em vocais principais passariam a ser bem mais bissextas. A pegada sonora resgata alguns elementos do rock mais tradicional e progressivo, dando uma pegada mais art rock pro disco. Várias canções do disco tornaram-se sucessos impressionantes, sendo vez por outra resgatadas pelo próprio Rebanhão ou pelo Carlinhos Félix em carreira solo, mas as mais notáveis são "Primeiro Amor" e "N'Ele Você Pode Confiar", que viraram parte do cancioneiro de várias igrejas, além de serem regravadas por diversos artistas, como Aline Barros, MILAD (a versão deles de "N'ele Você pode Confiar" saiu com o nome "Conheci um Grande Amigo" e com letra extendida), Damares, Marco Aurélio, Alex Gonzaga, Paulo Cézar Baruk e Soraya Moraes, dentre outros.

Curiosidade: O manto preto segurado por Pedro Braconnot na foto de capa e na de contracapa representa Janires, que morrera naquele mesmo ano de 1988, como uma homenagem ao líder eterno da banda.


Grandes Momentos (1989/1994)

01 - Primeiro Amor
02 - Novo Dia
03 - Nele Você Pode Confiar
04 - Vinde às Águas
05 - Jesus é Amor (Jesus is Love)
06 - Você Precisa de Deus
07 - Semeador
08 - Pastor da Minh'Alma





Parte integrante do projeto "Grandes Momentos" da gravadora Continental/Warner, que diversos artistas cristãos inclusive dariam as caras, como Álvaro Tito, Edison e Telma, Marina de Oliveira, Grupo Logos, Ozeias de Paula, dentre outros; foi originalmente lançado em LP e anos mais tarde em CD. Traz um apanhado de canções dos dois álbuns da Polygram, a fase mais pop/rock da banda. Curiosamente nenhuma faixa com Pedro Braconnot nos vocais principais aparece, e somente "Semeador" com Paulinho nos vocais aparece. Todas outras prevalecem a voz e a liderança de Carlinhos Félix àquela época. Tirando essas questões todas, é uma coletânea fantástica, e foi meu primeiro contato com essa fase da banda.

Curiosidade: A foto de capa, que já havia aparecido na contracapa de "Semeador", mostra Paulinho e Pedro com as camisetas semiabertas, numa alusão à censura sofrida anos antes pelo "peito cabeludo" do líder original da banda, Janires, no disco "Mais Doce que o Mel".


Princípio (1990)

01 - Princípio
02 - Fronteiras
03 - Palácios
04 - Muro de Pedra
05 - Metrô
06 - Grito de Silêncio
07 - Má Sensação
08 - Ele te Ouve
09 - Arsenal
10 - Selo do Perdão


Primeiro CD de música cristã lançado no Brasil (também saiu em LP - possuo essa versão - e em K7 Cromo), e também o disco de estreia da gravadora Gospel Records, foi eleito pelo Super Gospel o décimo maior disco de música cristã brasileira e posteriormente o maior disco cristão da década de 1990. Uma capa absurdamente linda, sem dúvidas a melhor da história da banda na minha opinião. Nesse disco eles seguiram no estilo mais art rock, com o baixo de Paulinho Marotta reinando em várias faixas e variações e fusões de estilo impressionantes. Várias faixas merecem destaque, mas o mais legal é ver uma evolução impressionante nas letras. "Fronteiras",  "Princípio", "Muro de Pedra" e "Arsenal" trazem uma crítica social bem relevante contra a desigualdade social, a destruição da fauna e flora e até uma cutucada na ideologia comunista que estava desabando junto com o muro de pedra de Berlim, ao passo que "Metrô" (e seu sax fantástico - cortesia de Paulinho Trompete, que junto com Zé Carlos, fez os metais desse disco) traz uma imagem do cotidiano de muitos, uma poesia pura. Mas o maior destaque indubitavelmente vai para "Palácios". A letra de Pedro, feita em 1987, demorou anos pra sair, possuíndo uma letra bem crítica e forte, e tornando-se a canção mais regravada da banda, tendo dentre outros que já a executaram Carlinhos Félix, Paulinho Makuko, Promises, Fernanda Brum e Paulo Cezar Baruk. Curiosamente não ganhou videoclipe, diferente das mais diretamente cristãs Ele te Ouve e Selo do Perdão (essa última o videoclipe foi na época da cruzada de Billy Graham pelo Brasil, e foi usada pelo saudoso pastor e evangelista estadunidense). Foi o último disco com Tutuca na bateria infelizmente.


Pé na Estrada (1991)

01 - Pé na Estrada
02 - Ovelha Ferida
03 - Existe um Lugar
04 - Fé
05 - "Salvador"
06 - Tempo pra Tudo
07 - Criação
08 - Pedaço do Céu
09 - Elo Perdido
10 - Nzile Nzulu (O Caminho do Céu)



O reggae da faixa-título de abertura já dá os primeiros passos do que esperar desse disco do Rebanhão: muita fusão sonora. Sexto álbum de estúdio da banda, e curiosamente, diferente do álbum anterior, só lançado em LP e não em CD (até hoje esse, Semeador e Novo Dia são os únicos da discografia que jamais saíram em CD). O progressivo aparece em "Fé" (música anteriormente cedida pelo Pedro Braconnot para o cantor Irakitan, conferir posteriormente num post daqui do blog sobre músicos cristãos de outros ritmos que tocaram rock), "Criação" - e o assovio fantástico e inesquecível, além de mais uma crítica à destruição da natureza - e "Elo Perdido", com uma das letras mais insanas da história. A curta "Salvador" tem elementos de música nordestina, relembrando músicas como Baião e Jesus Meu Refúgio, lembrando muito também artistas como Alceu Valença, Belchior, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Fagner. "Tempo pra Tudo", com sua pegada funk, ainda tem um rap de sobra que Carlinhos faz no meio da música, e pra terminar uma bateria que é puro samba, cortesia de Serginho Batera. O sax do mestre Zé Canuto em "Pedaço do Céu" é um achado fora de série. A faixa de fechamento do disco, "Nzile Nzulu", é uma versão em homenagem aos irmãos do norte de Angola que falam no dialeto fiote, por isso é cantado nesse idioma pelo cantor Eduardo Mabiala:

Nzile nzulu itunkuendila batata (bamama)(4x)(O caminho do céu por onde iremos, Senhores. (Senhoras))
Eh nzile nzulu! Itunkuendila! (É o caminho do céu, por onde iremos)
Eh itunkuendila batata (Por onde iremos, Senhores)
Jesus Cristo é o caminho e a verdade (4x)
O aleluia Ele é o Salvador
É Jesus Cristo o nosso Senhor.

A capa desse disco é de longe a mais elaborada, com detalhes dos mapas dos estados de Rio de Janeiro e São Paulo (Estados em que a banda foi sediada ao longo dos anos), bem como de outras partes da região Sudeste do Brasil. Infelizmente é o último disco com Carlinhos Félix (que seguiria carreira solo) e Paulinho Marotta (que saiu por problemas de ordem pessoal). Ambos só voltariam quando a banda completou seus 35 anos e voltou a ativa.


Enquanto é Dia (1993)

01 - Me Leva Pra Casa
02 - Como as Ondas do Mar
03 - Enquanto é Dia
04 - Janela do Céu
05 - Comando de Crito
06 - Velho Amigo
07 - Baião 1993
08 - Mistério
09 - Luz de um Campeão



Primeiro disco da banda só com Pedro da formação clássica, ele reformulou toda a banda, adicionando o fantástico guitarrista Pablo Chies, o baixista Rogério Dy Castro e o baterista Wagner Carvalho (que já havia participado quando criança do disco Janires e Amigos). Além desses, teve a participação de diversos artistas, como o irmão de Wagner, Waldenir Carvalho, o saxofonista Zé Canuto, os grupos Ruama e Semeador e o mais importante, Dico Parente, que cantou em algumas faixas, com uma voz forte e aguda, trazendo elementos do hard rock para esse disco (em especial nas faixas "Mistério" e "Luz de um Campeão"), mas também em "Como as Ondas do Mar", trazendo a tona os caminhos que a banda tomaria nos próximos trabalhos. "Baião" ganhou uma nova versão em homenagem ao Janires (com um trecho da versão original como vinheta de abertura). A simplicidade desse último trabalho pela Gospel Records (exceto pela coletânea lançada posteriormente pela gravadora) não impediu que ele recebesse a 98ª posição dos 100 maiores discos de música cristã pelo portal Super Gospel.

A versão em CD vinha com quatro faixas bônus de Pé na Estrada: Pé na Estrada (cantada pelo Paulinho Marotta), Ovelha Ferida, Fé e Elo Perdido. Curiosamente nenhuma cantada pelo Carlinhos Félix. Problemas com o contrato dele na época pela MK Publicitá ou simples falta de espaço mesmo? Talvez nunca saberemos hahahaahah. Curiosamente, embora já tivesse fora da banda a quase dois anos após o lançamento desse disco, Carlinhos lançaria uma versão de "Comando de Cristo" em um de seus trabalhos solo.


Por Cima dos Montes (1996)

01 - Sempre estar contigo
02 - Louvor
03 - Eu Voltarei
04 - Por Cima dos Montes
05 - Noiva
06 - Salmo 147
07 - Crazy for Jesus
08 - Salas de Jantar/Contemplar
09 - Ligado na Videira
10 - Razão (1996)
11 - Flor do Campo



Capa do relançamento de 2002

Mesma formação do álbum anterior, mas a sonoridade nesse aqui ficou bem mais pop e até mais worship. É um disco agradável, um dos últimos discos brasileiros a sair em vinil (pelo menos até o retorno dessa mídia em meados dos 2000) e com uma bela capa. Mas em questão de novidade o disco não traz nada demais. Apesar da divulgação da Continental/Warner, o disco não tinha nada de relevante, e acabou bem apagado em vendas e em lembrança por parte de muitos fãs clássicos da banda. A quantidade enorme de regravações (Razão, Flor do Campo - numa versão mais louvor - e o novo medley Salas de Jantar/Contemplar - a primeira com uma alteração sutil, ao invés de "Mas como já ensinava o velho profeta" diz "mas como já ensinava o velho JANIRES" em mais uma homenagem ao velho líder) também contribuiu pra essa pouca relevância do disco. Mas rendeu bons momentos, como "Por Cima dos Montes", "Crazy for Jesus" (que virou uma frase bastante comum na época e até um logo alternativo da banda - vide abaixo) e "Ligado na Videira". Uma curiosidade é que é o único disco da banda com um só intérprete: Pedro Braconnot.

A versão original de 1996 saiu com um erro na ordem das faixas, situação corrigida com um relançamento em 2002, com nova capa.



O Melhor do Rebanhão (1998)

01 - Existe um Lugar
02 - Palácios
03 - Muro de Pedra
04 - Fronteiras
05 - Pé na Estrada
06 - Metrô
07 - Criação
08 - Nzile Nzulu
09 - Ovelha Ferida
10 - Selo do Perdão
11 - Princípio
12 - Arsenal
13 - Baião
14 - Mistério
15 - Comando de Cristo
16 - Elo Perdido
17 - Fé

Coletânea com algumas das melhores faixas da fase da banda na Gospel Records ("Princípio", "Pé na Estrada" e "Enquanto é Dia"). Curiosamente poucas faixas do último disco, e uma prevalência quase absoluta dos dois primeiros. Eu trocaria fácil Nzilu Nzulu por "Enquanto é Dia". A escolha das faixas foi feita por Paulinho Makuko (Katsbarnea, Renascer Praise), que a época era produtor musical da gravadora, e sinceramente faltou esse bom senso por parte dele, já que a faixa-título do terceiro disco fazia um sucesso impressionante até àquela época (em 1999 ainda tocava direto na rádio Manchete Gospel FM), ao passo que Nzile Nzulu parecia mais um "Obladi Obladá" dos Beatles, apesar da boa intenção, passa longe de ser uma das mais memoráveis canções. "Má Sensação", "Ele te Ouve" e "'Salvador'" também mereciam bem mais que essa aí. Mas ok né, é uma baita compilação, as outras faixas são ótimas seleções e foram meu primeiro grande contato com a clássica banda.

Curiosidade: O nome do Paulinho Marotta aparece creditado errado em "Pé na Estrada", como "Paulo Muratto". Já "Ovelha Ferida" aparece com dois nomes: o correto na contracapa e "Ovelha Perdida" na parte de trás do folheto.



Vamos Viver o Amor (1999)

01 - Vamos Viver o Amor
02 - Josué
03 - Ele é Luz
04 - Meu Maior Desejo
05 - Fronteiras 1999
06 - Por Isso Vem
07 - Mais que Amigo
08 - Nós te Adoramos
09 - Unção
10 - Brasil



A melancólica despedida da banda mais clássica e que ajudou a desenvolver a música cristã contemporânea brasileira e trazer novidades não só musicalmente como liricamente me parece similar ao que ocorreu com outra precussora, essa lá dos EUA: Petra. Nos últimos anos ambas, com formações cada vez mais descaracterizadas e aparentemente em busca de manterem-se dentro das sonoridades da época, em que no caso da banda Petra estava tomada por bandas mais de rock alternativo e pop congregacional e no caso do Rebanhão já enfrentava a concorrência cada vez maior dos grupos worshipes e praises inspirados pelo Hillsong e os primórdios do chamado "louvor jovem", com grupos como Filhos do Homem, Fernandinho, David M. Quilian e outros, acabaram cedendo lentamente às pressões de seus mercados e foram amaciando o som pra algo mais comercial, com letras mais diretas e com pouca poética ou metáforas, pouquíssima crítica, enfim, uma queda considerável de relevância na busca de ser mais um dentro do que todos faziam.

Essa última formação da banda foi toda modificada, a exceção do quase onipresente Pedro Braconnot. Israel Maxmiliano fez as guitarras e cantou em algumas músicas, inclusive na mais relevante do disco, "Mais que Amigo", a única que eu realmente tenho lembranças da época (tocava um bocado nas rádios e eu amava ouvir quando criança essa) e ainda tinha influências de black music, algo novo na banda; e na faixa título, que ganhou até clipe. De resto são louvores bem simples, que poderiam ser tocados facilmente em qualquer louvorzão de igreja, algo bem parecido com o que houve com sua irmã mais nova, a Banda Azul, quando começaram a investir na série "Louvor, Louvores, Louvorzão". A única exceção é "Fronteiras", regravação que ficou bem mais suave que a original de 1990. A relevância desse disco é tão pequena que é difícil ele ser lembrado por fãs ocasionais da banda, que com certeza não lembrarão do canto profético de "Brasil", a faixa final do disco, e a que calou a voz da banda (e de certo modo o movimento gospel morreu com eles) por longos 15 anos...


35 (2017)

OBS: Tracklist do DVD, a diferença pro CD é a não-inclusão de "Primeiro Amor".
01 - Princípio
02 - Arsenal
03 - Muro de Pedra
04 - Pé na Estrada
05 - Fronteiras
06 - Selo do Perdão
07 - Pastor da Minh'Alma
08 - Casinha
09 - Hoje Sou Feliz
10 - Metrô
11 - Comando de Cristo
12 - Velho Amigo
13 - Refúgio
14 - Palácios
15 - Razão
16 - Primeiro Amor
17 - Baião

Por anos a banda ficou separada e não faltaram fãs implorando um retorno. Em 2004 Carlinhos Félix recebeu uma homenagem do Troféu Talento e nessa Pedro Braconnot e Paulinho Marotta foram convidados a participarem. Assim nasceu o desejo do retorno, só consumado em 2014 e aí começaria a luta para gravarem o show de 35 anos, conquistado enfim em 05/11/2016 na ADVEC do Rio de Janeiro e lançado quase um ano depois. Chega a ser emocionante demais ouvir clássicos da banda e ver eles tocando juntos e mostrando que o tempo é incapaz de tirar a relevância de canções das fases diversas que a banda passou, de "Mais Doce que o Mel" até "Enquanto é Dia". O trio principal, junto com o grande guitarrista Pablo Chies Tavares de Souza (melhor músico disparado da fase mais "worship" da banda) e o batera Bruno Martins, fazem releituras fantásticas de suas canções. "Velho Amigo" ganhou um videoclipe de estúdio com uma regravação da música só pra dar o gostinho do que vinha e veio realmente um clássico. Bom demais mesmo. Isso é um revival que agradeço a Deus poder ter vivido pra ouvir e ver.

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Rebanhão participou de algumas coletâneas, logo mais na seção delas será possível avaliar.

Pedro Braconnot produziu diversos discos ao longo dos anos, além de junto a sua esposa Anya ter participado de uma edição da coletânea romântica "Amo Você" da MK Publicitá.

Janires recebeu um disco de Tributo fantástico, que pode ser avaliado logo mais na seção de tributos.



Ver também:

Sinal Verde
Banda Azul
Carlinhos Félix
Lucas Ribeiro