terça-feira, 16 de julho de 2019

Keith Green


"Eu canto Keith Green / Você canta o que?"

Palavrantiga - Rookmaker

Keith Gordon Green (21/10/1953 - 28/07/1982) foi muito além de um cantor cristão, foi um verdadeiro exemplo de vida cristã. Comparável ao nosso Janires aqui no Brasil, ele comandou junto com sua esposa Melody Green o ministério Last Day Ministries, ministério esse que continua na atividade sob a liderança da esposa, com o intuito de levar uma mensagem de Evangelho simples, combativa e verdadeira. Keith Green nasceu de família judia em Nova York e muito cedo eles se mudaram pra Califórnia, sendo criado nos princípios da herética "Ciência Cristã". Seu amor por música foi desde criança, tocando o ukulele como seu primeiro instrumento - vai ver daí tanta banda do Novo Movimento aqui no Brasil ama esse instrumento hoje em dia kkkkkkkkkk - e fez suas primeiras gravações bem cedo em singles pela gravadora Decca, só que todas voltadas pro mercado secular. Virou um sucesso teen instantâneo, até que foi eclipsado por outro jovem talento, Donny Osmond.

Insatisfeito com as ideias bizarras de ser um judeu e ao mesmo tempo seguidor da ciência cristã, começou a entrar de cabeça no mundo das drogas e do amor livre, junto com sua já esposa Melody (que também era judia). Um dia, depois de muitas viagens insensatas e estudos céticos de filosofia e teologia, o amor de Deus invadiu seu coração e Keith e sua esposa abandonaram de vez a Ciência Cristã, tornando-se cristãos-novos de verdade e entrando na Vineyard. Em 1975 eles começaram um ministério evangelístico gigantesco (o núcleo do Last Days Ministries, que só nasceria oficialmente em 1978), inspirado por Leonard Ravenhill e Charles Finney, e a partir de 1976 Keith voltou ao mundo da música, primeiro no projeto Firewind com vários músicos cristãos, e no ano seguinte com o disco "For Him Who Has Ears to Hear", passando a ser um ministério de pop/rock e adoração totalmente dedicado ao Senhor.

Keith odiava tietagens, não era muito fã de fotos ou vídeos (há apenas um único show dele oficialmente registrado, mas o VHS da época ele distribuiu com fins evangelísticos) e, embora sendo parte do Jesus Movement e da renovação musical, sempre foi um crítico de certos comportamentos de "estrelismo" por parte de músicos cristãos (no artigo "Can God Use Rock Music?" - traduzido no Brasil como "Pode Deus Usar o Rock'n'Roll?" aqui mesmo nesse blog - ele fala acerca desse assunto).

Keith viajou pelo mundo e sempre com mensagens fortes e um ministério impressionante, mas um dia de 1982, Deus o levou consigo num acidente de avião com apenas 28 anos de idade, em que também faleceram seus filhos mais velho Josiah de 3 anos e Bethany de 2 anos, além de 9 pessoas (entre elas um casal de missionários e seus seis filhos) que os acompanhavam. Deixou viúva Melody Green e duas filhas, Rebekah Joy e Rachel Hope - essa última ainda no ventre de Melody. Em 27/11/2001 ele foi introduzido ao Hall da Fama do Gospel Americano. Recebeu várias homenagens, alguns lançamentos póstumos e suas músicas já receberam versões no mundo inteiro. Hits como "Your Love Broke Through", "You Put This Love in My Heart", "There is a Redeemer", "Asleep in the Light", "Unless the Lord Builds the House", "The Prodigal Son Suite", "Dear John", "Easter Song" e a mais famosa, "Lord, You're Beautiful" são lembrados até hoje.



For Him Who Has Ears to Hear (1977)

01 - You Put This Love in My Heart
02 - I Can't Believe It!
03 - Because of You
04 - When I Hear The Praises Start
05 - He'll Take Care Of The Rest
06 - Your Love Broke Through
07 - No One Believes In Me Anymore (Satan's Boast)
08 - Song To My Parents (I Only Wanna See You There)
09 - Trials Turned To Gold
10 - Easter Song


Clássico álbum de estreia na carreira cristã do Keith, com três de seus maiores sucessos aqui. Curiosamente duas de suas grandes músicas, "Easter Song" (música pascal falando da ressurreição de Jesus) e "Your Love Broke Through" já haviam tornado-se sucessos (a primeira com o grupo 2nd Chapter of Acts - Keith fez uma versão própria nessa - e a segunda com Marcia Hines), já "You Put This Love..." é uma das músicas mais belas do Keith, junto com "I Can't Believe It!". Musicalmente o disco alterna entre momentos de worship, pop rock, folk/country e world music. A gravação foi toda "ao vivo em estúdio", com praticamente nenhum overdub.

"(Until) Your Love Broke Through" ganharia versões posteriores de Phil Keaggy, Rebecca St. James, Debby Boone, The Katinas, Russ Taff e Randy Stonehill.


No Compromise (1978)

01 - Soften Your Heart
02 - Make My Life A Prayer To You
03 - Dear John (A Letter to the Devil)
04 - How Can They Live Without Jesus?
05 - Asleep in the Light
06 - My Eyes Are Dry
07 - You!
08 - I Don't Wanna Fall Away From You
09 - Stained Glass
10 - To Obey Is Better Than Sacrifice
11 - The Victor
12 - Altar Call

A capa, uma representação do ocorrido com Mordecai, tio da rainha Ester, ao não se prostrar ante o pagão Hamã -, representa bem a ideia de Keith de se opor aos atos de idolatria de muitos ditos cristãos para os artistas - em especial os que faziam carreira cristã. Musicalmente segue no estilo mais pop/rock e folk alternando com o worship, com abundância de piano (instrumento predileto de Keith), incluindo a bem humorada "Dear John" (que foi criticada no livro "Pop Goes to Gospel" - Rock in Igreja? aqui no Brasil - de John Blanchard, que considerou que os cristãos não devem "desrespeitar o diabo, mesmo ele sendo quem é". Pelamor de Deus né... ainda usou o exemplo de Miguel relatado na Epístola de Judas, sendo que o caso de Miguel foi porque ele não queria tomar o lugar de Deus em condenar o diabo, só isso). A adoração de "Make My Life..." é um tema que virou comum atualmente por vários grupos de adoração, pedir que Deus torne nossas vidas um louvor a Ele - acabou nomeando um livro escrito pela viúva dele, Melody Green, anos mais tarde. Soften Your Heart é uma ótima música para iniciar o disco. "To Obey..." representa uma temática comum de Keith de alertar muitos a não passarem dos limites estabelecidos por Deus dentro de seu ministério. Mas se existe uma faixa que ultrapassa os limites de obra de arte, essa se chama "Asleep in the Light". Essa faixa, uma crítica atemporal aos cristãos que vivem em conforto ignorando o que passam muitos lá fora da igreja, é similar à ideia de "Etc e Tal (Ponte)" de Janires, gravada em sua primeira K7 em 1979 (só um ano depois de Asleep in the Light). A faixa acabou posteriormente nomeando uma série de discos chamados "Quem se Importa?" do ministério Clamor Pelas Nações (do pastor Ricardo Robortella, da Igreja Batista de Contagem), que coverizou em seu primeiro disco as músicas "The Sheep and the Goats" (As Ovelhas e os Bodes), e, claro, Asleep in the Light, com o nome "Adormecido na Luz" - essa última com a participação do cantor Gerson Freire. A produção de Bill Maxwell nesse e no disco anterior foi muito boa, tornando esse um clássico inesquecível.


So You Wanna Go Back to Egypt (1980)

01 - So You Wanna Go Back to Egypt
02 - Pledge My Head to Heaven
03 - If You Love the Lord
04 - Romans VII
05 - Lies
06 - I Want to Be More Like Jesus
07 - Unless the Lord Builds the House
08 - Oh Lord, You're Beautiful
09 - You Love the World
10 - Grace By Which I Stand



Corajoso. Essa é a definição de "So You Wanna...", o primeiro disco de Keith com financiamento privado, com o objetivo de não obter lucro nenhum com vendas do disco. Em 1982, das 200 mil cópias produzidas do disco, 61 mil foram DOADAS pelo cantor e instrumentista.

A gravação teve a participação de muitos amigos de Green, como Ralph Carmichael nos arranjos, Matthew Ward (2nd Chapter of Acts), Kelly Willard, Kelly Perkins e Bob Dylan tocando gaita harmônica em "Pledge My Head...". À época ambos tornaram-se amigos íntimos e Dylan chegou a fazer três álbuns dedicados à fé cristã que ele a partir dali nunca mais deixaria - apesar de ter voltado à cena secular. Musicalmente o som é suave, com letras mais voltadas à adoração, mas com algumas faixas mais agitadas, como a faixa título (uma crítica aos que ficam querendo voltar às práticas mundanas), "Lies" e "Unless the Lord...", outra faixa alertando os cristãos que se metem a fazer coisas que Deus não mandou. Sem dúvidas entretanto a faixa mais famosa desse disco é "Oh Lord, You're Beautiful", que recebeu covers pelo mundo todo - aqui no Brasil a versão mais famosa é de Domício Jr., com o nome "Senhor Formoso És", e que recebeu sua primeira - e melhor - versão na voz de Marcos Góes.

The Keith Green Collection (1981)

01 - Introduction
02 - Rushing Wild
03 - You Put This Love in my Heart
04 - Grace by Which I Stand
05 - You!
06 - Your Love Broke Through
07 - He'll Take Care of the Rest
08 - Lies
09 - The Sheep and the Goats
10 - Asleep in the Light
11 - Soften Your Heart
12 - How Can They Live Without Jesus?
13 - Scripture Song Medley
 I - This is the Day
 II - This is my Commandment
 III - Rejoice in the Lord Always
 IV - Clap Your Hands
 V - Spring Up O' Well

Única compilação de Green lançada em vida, contém alguns de seus maiores sucessos dos três discos, além de algumas faixas inéditas ao vivo: "Rushing Wild", a épica "The Sheep and the Goats" (inspirada na última parte do Sermão Profético, em que Jesus compara o Juízo Final com dois ajuntamentos, um de ovelhas e outro de bodes, e cada um tem um destino diferente em seu reino) e "Scripture Song Medley". A escolha das faixas foi muito bem feita, tornando esse disco um clássico do rock cristão e adoração.

Songs for the Shepherd (1982)

01 - The Lord is my Shepherd (Psalm 23)
02 - You Are the One
03 - How Majestic Is Thy Name (Psalm 8)
04 - Draw Me
05 - Glory Lord Jesus
06 - There is a Redeemer
07 - The Promise Song
08 - Until that Final Day
09 - Jesus is Lord of All
10 - O God Our Lord
11 - I Will Give Thanks To The Lord (Psalm 9)
12 - Holy, Holy, Holy


Músicas mais próximas de um Praise Rock, são em sua maioria canções feitas pelo próprio Keith, só, ou em companhia de sua esposa Melody. A única exceção é a clássica "Holy Holy Holy" (Santo, Santo, Santo) escrita pelo reverendo anglicano inglês Reginald Heber no início do século XIX e a composição harmônica feita em 1861 pelo clérigo inglês John Bacchus Dykes com o nome Nicaea. Considero esse disco um dos primeiros a definir o que seria o estilo "worship rock", com letras refletindo verdades bíblicas (três delas extraídas diretamente do Livro de Salmos inclusive) - apesar disso, há algumas faixas agitadas, como a fantástica "Jesus is Lord of All". Mas não há dúvidas que o maior sucesso desse disco é uma canção feita pela Melody Green, "There is a Redeemer", que provavelmente é a faixa de Keith mais regravada de todas, já tenho recebido versão de, entre outros, Kathy Troccoli, Matthew Ward e Kelly Willard. Sua influência o levou a ser incluído em pelo menos vinte hinários do mundo inteiro, msotrando o nível de clássico esse som chegou. Tragicamente foi o último disco de Keith lançado em vida.

I Only Want to See You There (póstumo, 1983)
Praticamente uma compilação, com uma única faixa inédita:
"Trials Turned to Gold"



The Prodigal Son (póstumo, 1983)

01 - I Can't Wait to Get to Heaven
02 - Lord I'm Gonna Love You
03 - The Prodigal Son Suite
04 - Keep All that Junk to Yourself
05 - Open Your Eyes
06 - Love with Me (Melody's Song)
07 - Only by Following Jesus
08 - Song for Josiah




Segundo disco póstumo lançado pela viúva de Keith, Melody (o primeiro, "I Only Want to See You Here", é uma coletânea com algumas poucas faixas novas), The Prodigal Son é uma compilação de gravações dele de 1977 a 1982, tendo algumas sido extraídas de apresentações do Green. Nesse disco aparecem faixas bem pessoais, ao nível de "Song To My Parents" do primeiro disco dele (dedicada a seus pais), as faixas em questão são "Love with Me" em homenagem a sua esposa Melody e "Song for Josiah", para seu primeiro filho, que acabou falecendo junto com ele e uma de suas irmãs, Bethany. Entretanto, é óbvio que a faixa mais lembrada do disco é a suíte épica que dá nome ao disco, inspirada na história do Filho Pródigo. Com seus mais de 12 minutos de duração e inspiração na música clássica, é sem dúvidas mais uma na lista dos clássicos de Keith.


Versão original em LP
Jesus Commands Us to Go! (póstumo, 1984)

01 - Dust to Dust
02 - A Billion Starving People
03 - When There's Love
04 - When I First Trust You
05 - Thank You Jesus
06 - On the Road of Jericho
07 - Jesus Commands Us to Go!
08 - Run to the End of the Highway
09 - Don't You Wish You Had the Answers
10 - Keith's Piano Prelude
11 - Create in me a Clean Heart

Último disco de inéditas póstumo de Keith, possui muitas músicas legais que ficaram perdidas no tempo. Organizado pela Melody, esse disco possui uma das mais belas canções de protesto da história, "A Billion Starving People", um alerta impressionante para muitos ditos "cristãos" que menosprezam a situação de pobreza e fome em diversos lugares do mundo. Segue o mesmo padrão sonoro dos anteriores, com uma belíssima produção. "Jesus comanda para todos nós IRMOS!" Essa ideia dele seguirá para sempre!


The Ministry Years (compilação, disco duplo, 1987-1988)
Contém faixas de Keith que saíram em todos os discos
de estúdio e compilações anteriores.



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Confiram a discografia completa, inclusive singles e compilações, AQUI. Alguns singles dele nunca apareceram em nenhum material, em vida ou póstumo (em especial os lançados antes de sua conversão), então iria dar um baita trabalho compilar tudo aqui. Um dos singles mais notáveis é "Sgt. Pepper's Epitaph", uma semiparódia do disco de maior sucesso dos Beatles, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Houveram alguns tributos a Keith. Assim que possível falarei deles no post específico de tributos.

Livro "CMF - A Origem da Força do Metal Cristão no Brasil" por Cláudio Tibérius e João "Johnnÿ" Dias



O livro "CMF - A Origem da Força de Metal Cristão no Brasil" é uma compilação de textos feitos pelo Cláudio Tibérius (fundador original do Christian Metal Force) em seu blog em 2009, quando o projeto fazia seus 20 anos de existência. Eu decidi fazer essa compilação anos atrás e cheguei a mostrar o projeto pra Cláudio, que gostou muito. Como nunca conseguimos publicar o livro, decidi por bem disponibilizar virtualmente a todos que tiverem interesse de conhecer um pouco dessa história impactante da origem do primeiro grande movimento de metal e punk cristão brasileiro, histórias das primeiras equipes, como o projeto passou a fazer parte da Renascer em Cristo, além de outros elementos, como o Bar Kirius, a zine White Metal Detonation, o primeiro congresso Underground da história, a origem das bandas Devilcrusher e Antidemon, dentre outras.

Download AQUI!

segunda-feira, 15 de julho de 2019

"Pode Deus usar o Rock'n'Roll?" por Keith Green (em português)

"Can God Use Rock Music?" é um famoso panfleto escrito pelo saudoso Keith Green no final dos anos 1970 em defesa do uso da música rock para evangelização, embora o texto em si evoque algumas críticas importantes para que o uso dessa ferramenta musical seja feita de maneira adequada e sadia, evitando os abusos que o orgulho e o egoísmo podem levar a nós que trabalhamos nesse meio a cometer tais excessos. Temos que ter nosso enfoque, nossas vidas e motivações totalmente nas mãos capazes do Senhor, ou as consequências podem ser fatais para nós e nosso ministério.

Fiz essa tradução que desde 2014 queria fazer e acabei tolamente esquecendo de fazer (desculpem-me kkkkkk), mas enfim, até que um dia trazendo para todos vocês esse inspirador texto!


Pode Deus Usar o Rock'n'Roll?
por Keith Green
Introdução
Esse é um artigo difícil para mim escrever, muito por conta do meu medo de pessoas pensarem que minhas opiniões podem ser prejudicadas pelo fato de eu estar envolvido na (como muitos chamam) “Música Cristã Contemporânea”. Como dá pra imaginar, o título desse artigo não é uma pergunta nova para mim. Desde que eu mesmo me tornei de alguma forma “culpado” por usar o meio do rock, tenho ouvido diversas opiniões sobre isto – e recebido ilimitados alertas, exortações ou outros meios de repreensão de pessoas de boa fé inclusive. Desde que eu recebo severamente diversas correspondências bem negativassempre lendo cada carta corretiva e negativa como uma possível palavra ou advertência de Deus – eu tenho buscado ouvir cada argumento de maneira precisa – orando e meditando em cada coisa profunda contida lá tendo sempre os valores eternos em mente.

Embora eu sempre desejasse dirigir ao público essas considerações, em geral eu respondia tudo isso de maneira privada, para de certo modo evitar novas controvérsias, mas agora eu acredito que chegou a hora de pôr essas questões abertamente, muito disso porque o Senhor tem me ensinado recentemente sobre motivações e como alguns querem colocar um ponto final em tudo isso!

Por favor entendam que essas são apenas minhas opiniões, e eu decerto não sou nenhuma autoridade nas Escrituras Sagradas – ou na música (exceto talvez as que eu mesmo faço). Essas são apenas algumas respostas que obtive ao longo dos anos e estudos com temor e tremor ante o Senhor. Mas como todo o resto, você pode buscar no próprio Senhor por si mesmo para ter suas respostas em questões difíceis. Eu espero apenas dar a vocês algumas coisas que eu mesmo penso sobre essa questão.


As Opiniões Prevalecentes
Podemos ver duas diferentes e opostas opiniões e escolas sobre se Deus poderia ou não usar algo tão questionável como o rock and roll como ferramenta evangelística ou até (me perdoem!) na adoração.

Uma questão comumente levantada pelos contrários ao rock para crer que ele, seja secular ou o “dito cristão”, não deve ser sequer ouvido ou mesmo usado como meio de nada pelos cristãos, é porque o rock é “do diabo”. Possuem diversas estatísticas e “provas” usadas para demonstrar que o som do rock por si mesmo é a causa direta de toda forma de mal: do uso abusivo de drogas à gravidez precoce. E muitas pessoas sinceras acreditam através de tudo isso que qualquer um que use o rock em qualquer forma não pode realmente ser usado ou abençoado por Deus.

Já a outra escola de pensamento diz que Deus pode redimir ou usar qualquer coisa – e justamente pelo fato do rock ser tão prevalente no mundo que o povo de Deus deve usar o mesmo meio para alcançar esses perdidos no mundo. Nisso, os que defendem tal posição dizem “cristãos estão no mundo, ainda que não façamos parte dele”¹ e “não foi o próprio Paulo que disse para nos tornarmos tudo para salvar a alguns?”²
A Visão Sobre os “do Rock”
Óbvio que sempre tomarei o partido da segunda escola de pensamento, porém acredito que esse grupo em alguns momentos estão indo um pouco longe demais, fazendo em nome da “liberdade” coisas que acredito serem ofensivas ao Senhor, por isso é necessário rever alguns pontos. Nunca devemos esquecer que Paulo também disse “não tornem sua liberdade em oportunidades para a carne.”³

É justamente por alguns desses abusos que eu escolhi permanecer em silêncio nesse assunto. Não posso tomar minha caneta pra defender os “roqueiros cristãos” porque, francamente, eu tenho me ofendido com certas coisas que tenho ouvido tanto quanto uma doce senhorinha cristã que acidentalmente caia em algum desses shows ditos cristãos.

Não é a batida que me incomoda, nem o volume – é o ESPÍRITO DA COISA! Parece uma atitude de “OLHE PARA MIM!” que vejo em cada show, ou aquela síndrome de “NÃO VÊ QUE EU POSSO SER TÃO BOM QUANTO O MUNDO?” que escuto em cada disco do gênero. Jesus não quer que sejamos tão bons quanto o mundo, ELE QUER QUE SEJAMOS MELHORES! E isso não tem nada a ver com ter um som, estilo ou talento de excelência – coisas que vão além do valor em si -, e sim na nossa motivação sempre que subimos num palco, em nossas razões em cantar nossas canções, e especialmente em PRA QUEM nós estamos cantando! Se há algo errado ou mundano no autodenominado “rock cristão” é o espírito de auto-exaltação e a atitude de sempre querer soar mais alto e claro (a si mesmos e não a Deus – Acréscimo do Tradutor) contidas em muitos dos discos e shows de hoje em dia.

(Por favor não me entenda mal, eu não quero aparentar ser um religioso, nem estou dizendo que “todos músicos e artistas envolvidos no rock têm que seguir exatamente meu exemplo de atitudes e motivações!” Acredite em mim, eu passo pelas mesmas coisas por muitos anos e essas coisas Deus me cobra em minha própria vida e ministério público).
E sobre essas estórias do “ritmo das selvas”?
Provavelmente você já ouviu algumas dessas eEstórias sobre uma família de missionários que foi a uma tribo de canibais, guerreiros vudus? Bem, pelo que dizem essas historinhas, o missionário levou diversos jovens que amavam ouvir “rock cristão” que na verdade, pelo que conta a versão mais famosa dessa história, era um K7 do ministro de louvor Ralph Carmichael – se realmente esses louvores contém o “mal” em si mesmos, a maioria dos cultos cristãos estão amaldiçoados! - Nota do Tradutor baseado em BAGGIO, Sandro “Música Cristã Contemporânea”, p. 82, nota 2). Certo dia, quando tocavam um desses discos bem alto, um xamã veio correndo da selva e disse “vocês estão tentando evocar os demônios com essa música? Não sabem que esse é o mesmo ritmo que usamos pra evocar demônios nos nossos rituais?” Eu ouvi essa história diversas vezes de diversas formas, mas sempre com o intuito de provar “É isso! O rock é criação do inferno, mesmo que ele apareça travestido de “rock cristão”.

Agora, eu sempre me divirto tentando pensar se essa história começou com algum missionário que ficou em campo por mais de 20 anos – e quando voltou pra sua terra deve ter morrido ao ouvir as mais recentes canções cristãs. (Ou isso, ou o xamã saiu da selva e acabou entrando num seminário evangélico ultraconservador!)

Mas sinceramente, eu duvido que essa história seja real – e até se for, isso não faz que ouvir “músicas com batida” faça com que sua família precise de um exorcista. O que precisamos agora é olhar essa questão: Realmente existe isso de “música maligna”? Para essa questão, eu devo responder um definitivo “SIM”!, mas as minhas razões para chamar uma música de “maligna” podem te surpreender.
O que é a “música maligna”?
"Eu sei, e estou certo no Senhor Jesus, que nada é de si mesmo imundo, a não ser para aquele que assim o considera; só para ELE é imundo."4

Não acredito que qualquer estilo musical possa ser “mal” por si mesmo. Eu creio que nenhum tipo de ritmo ou estrutura musical ou linhas melódicas possa nascer no inferno. A ideia de que o diabo tenha inventado certos estilos musicais para capturar almas de jovens inocentes da atualidade não só não tem fundamento, mas é o mesmo nível de ridículo de dizer à juventude das igrejas como se dizia a um tempo atrás “masturbação causa cegueira” (no Brasil diziam que criava pelos e bolhas nas mãos – Nota do Tradutor). Por que tentar amedrontar os garotos pra que façam o que é certo? Por que não combater o problema real – O EGOÍSMO!

A sugestão de que haja algo como “música boa ou ruim”é absurda pra mim. Eu estou envolvido em todo aspecto musical em toda minha música e tenho testemunhado os vários efeitos que ela causa em mim e outras pessoas, e eu tenho de dizer, nunca vi NENHUM CASO em que a música tenha sido a causa direta de uma vida pecaminosa ou destruída em pessoa alguma.

Por outro lado, vejo a música como ferramenta de egoísmo e egocentrismo nas pessoas (até em mim mesmo). Eu vejo também ela ser usada para criar sensualidade nas pessoas com luxúria e manipulação em suas mentes. Vejo grupos de rock admitirem ser adoradores de satã ou praticantes de magia negra (embora em muitos casos seja apenas para ter fama, não sendo realmente praticantes disso – Nota do Tradutor) que emprega a música como ferramenta para iludir seus espectadores. Sim, eu tenho que admitir que um observador casual pode considerar qualquer um envolvido com o rock nessa podridão, usando o conceito de “culpado por associação”.

Mas todos os exemplos mencionados mostram somente as motivações dos corações, não a música em si mesma! Isso porque creio que a música em si mesma é uma força neutra. Deixe-me dar um exemplo.

Pegue uma faca. Com ela você pode cortar pão, entalha uma escultura, solta alguém preso por cordas, ou você pode usar isso para roubar ou até mesmo matar alguém. Em outras palavras, você pode com ela fazer algo criativo e produtivo, ou algo destrutivo e assassino. A faca em si, se colocada num ambiente de pessoas perigosas, vira uma arma. Mas colocada numa cozinha, torna-se uma ferramenta que é útil, sempre que necessário, para a preparação da nutrição de sua família.

Outro exemplo: vejamos a “dança de Davi”. A Bíblia diz que o Rei Davi “dançou ante a majestade do Senhor”. Mas atualmente pessoas dançam em bares e discotecas (atualmente em casas de shows, raves e similares – Nota do Tradutor), e depois muitos se satisfazem em embriaguez alcoólica, drogas e sexo ilícito. Teria a dança em si poder de produzir desejo por drogas, sexo e embriaguez? Você e eu sabemos que sim, alguns movimentos do corpo podem excitar algumas pessoas. Mas alguns têm esses desejos perversos em quaisquer outras formas de estimulação pra começar com isso. Eu vejo cristãos “dançando no Espírito” e alguns também dançando “na carne”. Isso não torna a dança em si maligna, ou a música que é dançada, mas sim as atitudes e motivações do coração.
Precisam os mexicanos aprenderem inglês??
Agora, nós não precisamos obrigar os mexicanos a aprender inglês antes de pregar o Evangelho pra eles, ou sim? A única razão de se usar música contemporânea em meu ministério é devido minha crença de que essa é a “linguagem” dos jovens. Após receber pilhas de cartas dizendo coisas do tipo “eu nunca iria dar ouvidos ao que você diz se não tivesse sido antes atraído pela sua música – eu estou seguro de que o único meio de alcançar esses amantes de música é em SUA PRÓPRIA LINGUAGEM!

Já ouviu falar de como John e Charles Wesley pegaram populares “canções de bar” do seu tempo e colocaram letras cristãs nelas? E nem dá pra imaginar o sucesso deles em alcançar pecadores com essas canções – ainda que muitos da própria igreja deles deplorassem seus métodos!

E quando o Exército da Salvação surgiu, e a quantos enervaram ao colocarem hinos em marchas de forças armadas – e eles seguirem em tocar e cantar essas “canções sensuais” (como as igrejas tradicionais da época que eles surgiram chamavam suas canções) pelas ruas nos domingos! Eles seguiram os passos dos irmãos Wesley, pegando cantorias de tavernas e as “convertendo” em coros de adoração, ou em toques de apelo para pessoas renderem suas vidas a Cristo! E nunca houve tantas pessoas “comuns” convertidas na Inglaterra como na época desses “Soldados da Salvação”.

Ó, quão inofensivas essas melodias hoje soam nos ouvidos de seus avós. Mas esses avós em outros tempos seriam acusados de soltarem, através do próprio diabo em pessoa, “demônios-musicais”!

Estes são que hoje em dia continuam a dizer que só se pode usar músicas suaves e “saudáveis” para alcançar jovens. De outra forma (dizem eles), nós apenas estaremos os estimulando à rebelião pecaminosa, e que veremos depois que as ditas conversões através do rock não seriam realmente autênticas. Um evangelista bem conhecido recentemente (na época da nota. Não achei o autor da frase, mas creio ter sido David Wilkerson, que anos mais tarde pediria perdão por tanto agredir cristãos fãs de rock – Nota do Tradutor) foi mais longe ao dizer “Ninguém JAMAIS será abençoado através dessa música cristã contemporânea!”

Esse tipo de raciocínio é similar à limitação feita pelos primeiros missionários na China. Eles achavam que o melhor caminho para “cristianizar” o povo de lá era os ensinar o modo de vida e de vestir dos europeus, e assim estariam “civilizando” os pagãos – invés de os converter (um erro que se repetiu nas catequizações dos colonizadores portugueses, espanhóis e ingleses na América como um todo com os ameríndios – Nota do Tradutor). Mas um jovem e zeloso missionário chamado Hudson Taylor mudou isso – ele sabia que o único modo de alcançar o povo era com a verdade do Evangelho. E ele sabia que era errado inserir QUALQUER aculturação ou conformação de “verdades de fora” que ele acreditava. Assim ele descartou suas vestimentas europeias e passou a se identificar com o povo para tentar os alcançar, vestindo-se como eles e adotando seus costumes. Embora a princípio ridicularizado e evitado pelos outros missionários que estavam com ele, seu sucesso final provou que Deus de fato o comandou a tudo que ele fizera.7
Colocando as pessoas “debaixo da lei”
Sabemos que Paulo teve os mesmos problemas “culturais” na igreja primitiva, onde os crentes judaizantes tentavam levar os novos convertidos gentios a primeiro abraçar a lei judaica e seus costumes antes de serem considerados cristãos.8 Creio que tentar mudar o gosto musical das pessoas, antes de ensiná-los a verdade, é tão errado quanto os judeus tentando circuncidar os gentios como um pré-requisito necessário pra vida eterna. A Bíblia é clara quanto a nos exortar a de maneira alguma colocar obstáculos no caminho das pessoas que receberam o divino e precioso dom da salvação!
Conclusão: Tudo depende da motivação!
Estou convencido de que o potencial de alcançar pessoas para Jesus por todos os meios – por discos, rádio, filmes ou televisão (e internet também nos dias atuais – Nota do Tradutor) – é monumental, simplesmente porque são as coisas que prendem e que continuam a prender a atenção popular. Eu realmente acredito que os cristãos que entregaram completamente suas vidas a Deus, usando essas ferramentas, podem levar pessoas a dobrarem seus joelhos em arrependimento e levarem estas a levantarem suas mãos ao Salvador. Porém se suas vidas NÃO estiverem totalmente entregues a Deus – ou se suas motivações forem CONFUSAS e seus corações DIVIDIDOS – eu vejo somente vergonha e ridicularização para o Evangelho. E sendo isto o caso em boa parte dos casos, isso dificulta as coisas e brilha mais como uma luz ruim – mesmo naqueles que têm corações limpos e motivações puras.

Eu também quero dizer por fim que sim, eu acredito que o Espírito Santo está entristecido com muito do que se passa hoje em dia como “ministério musical” ou “música cristã” - nem tanto pela batida ou conteúdo, mas pela falta de compromisso e unção. Mas ainda que pessoas de corações malignos usem o rock como meio de rebelião e auto-exaltação não significa que esse estilo não pode ser usado por pessoas submissas a Deus para capturar a atenção dos pecadores; e levar estes a largarem seus próprios “eus” - e lançarem-se ante o trono de Cristo!

Após tudo, muitos não usam a MESMA BÍBLIA que nós acalentamos ser a Santa Palavra de Deus, e a distorce e torcem “para sua própria destruição?E o próprio diabo não usou as Escrituras pra Jesus?¹Como você pode ver, um coração perverso pode perverter até a mais sagrada e bela das coisas. E do mesmo modo, Deus pode pegar o vaso mais sujo e usá-lo para Sua glória.¹¹ (Basta ver você e eu mesmo!) Acredite em mim, se seu coração estiver correto, sua música será correta também. Mas se seu coração estiver coberto de egoísmo e orgulho, ainda que você cante o hino mais doce de todos, sua cantoria trabalhará somente morte e não vida. Pois...

"Um homem bom tirará do bom tesouro que há em seu coração somente coisas boas, mas o homem mau, de seu tesouro mau só trará coisas más, assim sua boca falará somente aquilo que preenche o seu coração.”¹²

 Notas de referência:
1) João 17:11, 15-16.
2) I Cor
íntios 9:22
3) G
álatas 5:13
4) Roman
os 14:14
5)
Boa ou má em si mesma
6) II Samuel 6:14
7) Hudson Taylor's Spiritual Secret, by Dr. and Mrs. Howard Taylor; Moody Press, Chicago, IL 60610.
8) Gálatas 5:1-1
9) II Pedro 3:16b
10) Mateus 4:6, Salmos 91: 11-12
11)
II Timóteo 2:20
12) Lucas 6:45
Traduzido por João "Johnnÿ" Dias em 15/07/2019.