domingo, 16 de junho de 2019

Cultura Underground dentro das igrejas: certo ou errado?

Muito tem se discutido acerca da cultura underground que ganha cada vez mais espaço nas igrejas
evangélicas. Na internet encontra-se facilmente fóruns com o tema. Depois de ler várias opiniões sobre o assunto, percebi que fala-se muito e não se diz nada. O assunto não é visto como deveria, através também de um viés sociológico sobre o fenômeno das subculturas em nossa sociedade e sobre a postura da igreja em relação a isso. É explícita a completa falta de contextualização ao citar versículos bíblicos nesses debates e sente-se marcante presença das "ideias e frases prontas", aquelas que as pessoas usam, mas sem saber o sentido do que dizem. Apenas sabem quando usa-las, mas não têm ideia do que elas significam na verdade. Nas linhas que se seguem, vamos descrever de forma sucinta o que a bíblia diz sobre o estilo underground e algumas de suas peculiaridades, como o uso de piercing, brincos, tatuagem, etc, a fim de elucidar a questão e a mente daqueles que se encontram enganados em toda a sua sinceridade.

O cristianismo é um estilo de vida transcultural. Se a bíblia nos trouxesse em si alguma cultura, esta seria a cultura palestina do 1º século, que foi a época em que os escritores do Novo Testamento viveram. Mas desde esses tempos remotos, o mundo girou muitas vezes, culturas e impérios surgiram e desapareceram, mas a igreja permaneceu e aqui estamos. Considero uma absurda arrogância dizer que a nossa cultura ocidental é a cultura mais ortodoxa, deixando assim subentender que a própria igreja de Cristo e o resto do mundo por todos os séculos passados viveram em trevas e em pecado até agora em nossos dias. Se devemos discutir a questão pelo viés dos usos e costumes, devemos então admitir que todos são hereges, pois mesmo as igrejas mais tradicionais não cultuam a Deus como a igreja primitiva de Atos.

Uma grande deficiência da igreja moderna também ligada à questão é a interpretação incorreta das
escrituras. A igreja não tenta compreender os princípios dos mandamentos que lhe foram dados pelos
autores, mas tenta segui-los literalmente, como em uma religião qualquer. Devemos ter em mente que, quando Paulo, por exemplo, escreveu sua carta aos Coríntios, ele escreveu aos Coríntios, e não a mim.

Imagine só, que você hoje escreva uma carta para um amigo, contendo várias respostas à uma carta que seu amigo havia lhe enviado anteriormente. Agora imagine que, no ano 4010, alguém encontre essa carta e a leia (suponha que essa pessoa conheça a língua na qual você a escreveu, porque, provavelmente, ela já estará em desuso há muito tempo). O que você acha que essa pessoa, no ano 4010, vai entender? Provavelmente ela entenda alguma coisa. Mas ela vai entender realmente o que você quis dizer? Se essa pessoa quiser entender a mensagem real dessa carta, ela terá que pesquisar sobre a sua vida, a vida de seu amigo, o motivo que levou vocês a enviar cartas um ao outro, deduzir o conteúdo da carta que seu amigo lhe escreveu antes, etc. É exatamente assim que funciona com a bíblia também. Se leio a primeira carta aos Coríntios, eu entendo alguma coisa. Mas será que eu estou entendendo o que a igreja de Coríntio entendeu quando recebeu e leu a carta? Será que eu sei o que Paulo queria dizer? Por que Paulo lhes escreveu? Por que eles escreveram a Paulo antes? Como era o mundo há dois mil anos atrás? Como pensavam as pessoas há dois mil anos atrás? Destarte, compreendemos que devemos conhecer e aplicar os princípios que geraram os mandamentos, e não seguir os mandamentos em si simplesmente "porque estão escritos." Todo mandamento tem um princípio, e é isso que devemos compreender.

Devemos esclarecer que o movimento underground deve ser considerado um movimento de subcultura. O termo subcultura é utilizado sociologicamente para se referir a um grupo de pessoas cujo comportamento tem características que o separa da cultura maior (ou dominante) da sociedade na qual ele se desenvolve. Tais grupos são considerando subculturas e não culturas propriamente ditas porque são ligados à cultura maior (ou dominante) e apresentam traços dela. Cada cultura traz em si sua maneira de vestir, falar e pensar, e com as subculturas isso não é diferente. As chamadas "tribos urbanas" adotam visuais chocantes que fogem aos padrões da cultura maior ou dominante, têm seu próprio vocabulário e têm também e principalmente uma outra maneira de ver o mundo, que muitas vezes batem de frente ao pensamento corrente na cultura maior. Vamos aqui nos deter apenas no que diz respeito ao visual dessas tribos, causa de tanta controvérsia no meio evangélico.

O meio evangélico tradicional argumenta que devemos nos apartar do visual underground pois não
devemos nos contaminar com as coisas do mundo, mas que devemos ser diferentes, ser luz. É sempre
citado João 2:15, que diz: "Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o .
mundo, o amor do Pai não está nele." Veja bem: já parte-se do pressuposto que o visual das tribos
underground é "do mundo". Primeiro ponto: por quê é "do mundo"? Segundo ponto: o que é "mundo"? O primeiro ponto ninguém nunca soube me explicar. O segundo, explico nas linhas que se seguem. Estamos lendo uma carta que João escreveu para algumas igrejas residentes em lugares próximos uns dos outros; pequenas congregações da Ásia Menor, necessitadas de instrução e conselhos que as ajudassem a viver em plenitude o testemunho da sua fé em Jesus Cristo. Opa, espere aí: então a carta não é pra mim? Não, não é pra você. A carta era para algumas igrejas que existiram há quase dois mil anos atrás. Então, como explicado nos parágrafos anteriores, vamos tentar entender o que os destinatários originais da carta entenderam. João lhes disse que eles não deveriam amar o mundo e nem as coisas que há nele. O que então é o "mundo" e o que são "as coisas que há nele"? Não foi o mesmo João que escreveu no evangelho de João que "Deus amou o MUNDO de tal maneira que deu seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna"? Espere aí: quer dizer que Deus amou o MUNDO, mas nós não podemos amá-lo? Mas não foi Deus quem criou o MUNDO em Gênesis? Então a bíblia diz que Deus criou o MUNDO e João diz que Deus o amou mas que nós não podemos amá-lo?Que confusão, hein?

Encontramos na bíblia palavras diferentes que foram traduzidas para o português como "MUNDO".
Existe na verdade o MUNDO que se refere à criação (como o que Deus criou em Gênesis), o MUNDO que se refere às pessoas em geral (como o de João 3: 16) e o MUNDO que João diz que não devemos amá-lo. Esse MUNDO, no grego, é COSMOS, e diz respeito a um SISTEMA organizado e liderado por Satanás, que inclui os que não aceitam a Jesus Cristo e se opõem à vontade de Deus. Esse é o MUNDO que não devemos amar. E o próprio João, no versículo seguinte, expõe o que são as "coisas que há no mundo": "porque tudo que há NO MUNDO, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede DO MUNDO". Logo, vê-se que João não estava tendo uma revelação de Deus para uma igreja preocupada com mesquinharias que surgiria num país que ainda seria descoberto quase 1.500 anos depois de sua morte. João não estava se referindo a nenhuma tribo underground nem da nossa época nem da dele.

Em relação ao uso de tatuagens, é usado o texto de Levítico 19:28: "Pelos mortos não ferireis a
vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós. Eu sou o Senhor." Este versículo é ainda mais
problemático. Vamos supor que devemos segui-lo à risca, como está escrito. Se devemos seguir Levítico 19:28, devemos seguir também Levítico 19:27 (apenas um versículo antes) que diz: "Não cortareis o cabelo em redondo, nem danificareis as extremidades da barba". Ou seja, todo homem na igreja deve ser barbudo com o cabelo quadrado. Se devemos seguir Levítico 19:28, vamos voltar agora dois versículos, e seguir também Levítico 19:26 que diz: "Não comereis coisa alguma com sangue, não agourareis, nem adivinhareis". Quem consegue comer carne que não tenha pelo menos um pouquinho de sangue? Então, todo homem crente dever ser barbudo, do cabelo quadrado e vegetariano. Não é isso que eu vejo naqueles que usam esse versículo para proibir tatuagem. Por que Levítico 19:28 deve ser observado e os versículos anteriores (e posteriores que não vou nem citar aqui) não? Depois, pegue sua bíblia e leia todo o capítulo 19 de Levítico. Por que extrair só um versículo? Simples: conveniência. Para provar o que se quer provar. Para sustentar um preconceito. Nos parágrafos acima vimos que não devemos seguir um mandamento de forma literal simplesmente porque "está escrito". Devemos, na verdade, entender o princípio que levou ao estabelecimento daquele mandamento. Então, por que foi ordenado aos israelitas em Levítico 19:28 que não ferissem a própria carne e que não fizessem marca alguma sobre ela? Esse mandamento se encontra repetido também em Deuteronômio 14:1: "Filhos sois do Senhor, vosso Deus; não vos dareis golpes, nem sobre a testa fareis calva por causa de algum morto". Esta proibição de fazer cortes e marcas sobre o corpo se destinava, na verdade, a evitar toda contaminação possível com um rito pagão cananeu de fazer incisões e marcas no próprio corpo em honra a Baal, o deus cananeu da fertilidade. Então, esse mandamento foi ordenado para evitar que o povo judeu se contaminasse com
qualquer rito pagão dos seus vizinhos cananeus. Vemos então que esse versículo também não serve de suporte a preconceitos e doutrinas. Se serve, então teremos problemas com os outros versículos do
mesmo capítulo de Levítico 19. É só escolher.

Em relação ao uso de brincos e piercings, a bíblia nos mostra que as mulheres israelitas usavam piercing. Em Isaías 3:21, lemos: "os sinetes e as jóias pendentes do nariz ...". Esse versículo reflete o costume da época de perfurar um lado da narina para colocar nela um brinco (comentário da Bíblia de Estudo Almeida). No contexto desse versículo, Deus está repreendendo as filhas de Sião, dizendo que irá retirar delas todos os seus adornos, "visto que são altivas as filhas de Sião e andam de pescoço emproado, de olhares impudentes ..." (Isaías 3:16). O problema, na verdade, não são os adornos, mas o caráter das filhas de Sião. Vemos então que o piercing era um costume das mulheres de Israel e que NUNCA foi repreendido pelo Senhor, pois nesse contexto o que é repreendido é o caráter das filhas de Sião. Se o próprio Deus não repreendeu esse costume, então quem o irá?

Alguns simplesmente acham que tudo isso não é certo nem errado, mas que deve ser evitado porque é
"escândalo". Não devemos "escandalizar" os irmãos. Mas o que é "escândalo"? Jesus disse que "é
impossível que não venham escândalos, mas ai do homem pelo qual eles vêm! Melhor fora que se lhe
pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e fosse atirado no mar, do que fazer tropeçar a um destes pequeninos." (Lucas 17: 1,2). A ideia dos partidários da doutrina do escândalo é que se eu uso um visual chocante, e alguém me vê e se "escandaliza", então, de acordo com o versículo, seria melhor que alguém amarrasse uma pedra de moinho no meu pescoço e me jogasse no mar. Será isso que Jesus quis dizer? Claro, óbvio que não. A palavra "escândalo" no grego é "skándalon" (de onde se derivou a palavra portuguesa escândalo) e significa tropeço ou armadilha, símbolo daquilo que incita ao pecado ou à perda da fé. Escândalo é todo ensino, palavra, obra ou omissão que incita o outro a pecar. Um visual underground não "escandaliza" ninguém, a não ser que uma pessoa comece a falar mal da outra pelo seu jeito diferente de vestir. Nesse caso, a questão não é o visual underground ou o visual "padrão do sistema", a questão é o caráter do maldizente.

O grande problema, na verdade, não está na bíblia. Está nas pessoas que têm dificuldade em aceitar o
diferente. Isso não acontece só na igreja. Isso é um problema comum a toda a sociedade e que se encontra presente na igreja, que tenta justificar essa sua posição em versículos descontextualizados, que nada têm a ver com o assunto. Em Apocalipse, João viu "grande multidão, que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos ..." (Apocalipse 7:9). Me indago sobre como será no céu o relacionamento dessas pessoas que têm dificuldade em aceitar o diferente com outras pessoas de culturas muito diferentes. Por exemplo, se temos em nossas igrejas brasileiras alguma apresentação de danças africanas em louvor a Deus, todos acham o máximo, pois é algo que não acontece sempre. É uma atração diferente. Todos dizem: "Que legal o jeito dos irmãozinhos africanos louvarem a Deus!". Mas dizem isso porque os "irmãozinhos africanos" vivem bem longe, lá na África, do outro lado do Atlântico. Queria ver se estivessem conosco todos os cultos louvando a Deus de seu modo barulhento e alegre. Com certeza seria necessário haver uma congregação só para eles, porque os mesmos que acharam "o máximo" aquela única apresentação de dança africana não iriam dividir com eles todos os cultos. Isso é corroborado pela exclusão das tribos underground das igrejas. A raiz do problema está no preconceito. Alguns argumentam que não têm preconceito porque tentam buscar pessoas de tribos underground para a igreja. Mas como não têm preconceito se quando essas pessoas entram na igreja, têm que cortar o cabelo, tirar os brincos, trocar as roupas, etc, ao invés de trocar apenas de coração? Seria isso conversão? Não é isso que vejo em minha comunidade, a Caverna de Adulão, que surgiu justamente dessa deficiência da igreja em aceitar o diferente. Quando a Caverna de Adulão surgiu, no início da década de 90, ela era apenas um ministério que trabalhava em conjunto com as igrejas, e não uma comunidade como é hoje. O objetivo era alcançar
jovens de subculturas diferentes, principalmente os "headbangers" (metaleiros), quando a capital mineira era considerada a capital nacional do Heavy Metal. Esse jovens que eram alcançados eram então encaminhados pela Caverna de Adulão a diversas igrejas, para ali serem tratados e crescer na fé. Mas não foi isso o que as igrejas fizeram. Esses jovens começaram a ser oprimidos dentro das igrejas e não eram compreendidos. Daí, ao perceber que muitos deles já estavam se extraviando, surgiu a necessidade de se reunir todos esses jovens e a Caverna de Adulão se constituiu então como comunidade.

Ser uma nova criatura não é ser 100% diferente do que se era antes de Jesus. Muitos dizem que ao se
converter, pessoas provenientes de tribos underground devem mudar o seu visual porque agora são
"novas criaturas em Cristo". Seguindo essa lógica de raciocínio, então as pessoas que não eram de alguma tribo underground deveriam então se tomar agora parte de alguma, porque agora é "nova criatura" também. Percebe-se que esse pensamento baseia-se no pressuposto de que tribos underground são "do mundo". Isso já foi explicado em parágrafos anteriores. Visual underground não é mais certo nem mais errado que o visual padrão do sistema imposto pela classe burguesa. Ambos são simplesmente amorais (N.R: Amoral é algo que não possui em si moral, diferente de IMORAL, que é algo de moral ruim, pervertida).

Conclui-se então que não existe base bíblica para proibir o visual das tribos underground nas igrejas.
Muito poderia ainda ter-se discorrido sobre o assunto, mas o exposto acima é suficiente para destruir os pilares principais das doutrinas humanas repressivas e preconceituosas de lideres e liderados (ou manipulados) que se preocupam demais com o material e externo e pouco com o transcendente e eterno.

Glauber Ataíde

Extraído de: http://dbcbrasil.blogspot.com que extraiu de: www.verbalizando.com.br

"O Senhor Não Vê Como Vê O Homem. O Homem Vê O Exterior, Porém O Senhor, Vê O Coração" (1 Samuel 16:7)

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